Wednesday, November 17, 2004

O medo da morte...

[...] a idéia da morte, o medo que ela

inspira, persegue o animal humano como nenhuma outra coisa; é uma das molas

mestras da atividade humana - atividade destinada, em sua maior parte, a evitar

a fatalidade da morte, vencê-la mediante a negação, de alguma maneira, de que

ela seja o destino final do homem.
Ernest Becker, A Negação da

Morte.
Temos visto no desdobramento da invasão do Iraque cenas de horror e tragédia. De ambos os lados. Como tudo acontece longe de nós, apenas olhamos e depois esquecemos. É como se fosse um filme. De alguma maneira nos enganamos como se tudo não passasse de uma encenação. Todavia, é alguma coisa muito real para aqueles que protagonizaram as cenas e para seus familiares e amigos. Desesperados, eles assistem tudo pela TV, ou pela Internet, ao vivo! A sensação de abandono e de impotência é imensa! E por isso mesmo o ódio e o desespero que toma conta de todos e nada se pode fazer.
Fiquei pensando naquela cena que vi pela Internet. Na telinha quatro homens encapuzados em pé diante de uma parede onde está estendida uma bandeira. Eles são fundamentalistas islâmicos. Um deles tem uma folha de papel na mão. Ele lê uma ladainha, numa língua que a maioria de nós não entende. Ele fala, fala, fala... Na frente dos quatro homens um outro homem está assentado, com os olhos vendados e chora baixinho... Depois de uns 8 minutos de lenga-lenga... de repente a leitura pára. Ato contínuo o homem guarda a folha de papel e saca de uma faca, avançando para o homem que está assentado no chão... O homem no chão percebe que a leitura acabou e sente a aproximação do outro. Ele tenta 'escapar'... mas, para onde? Então, no vídeo que eu assisti, some-se a imagem e fica apenas o som... um grito desesperado que termina num gorgolejar monstruoso de quem tem o pescoço cruel e lentamente decepado... Um homem ou uma mulher acaba de ser decapitado... Em nome de Deus!!!
Eu não consigo assistir alguma coisa assim sem me colocar no lugar da vítima. Fico imaginando os pensamentos que passaram pela sua mente naqueles momentos. Fico pensando nos sentimentos que se alternaram em seu coração: desespero, ódio, medo, terror, ira, desânimo, depressão, solidão, saudade, arrependimento... Fico pensando ainda na sensação daquele que sabia que daí a alguns minutos iria deixar de existir... e de maneira violentíssima. É difícil morrer numa situação assim. Morrer já é difícil, agora, morrer sem causa... Sim, muitos deles foram escolhidos ao acaso. Alguns eram turistas, outros honestos trabalhadores. Outros estavam fazendo beneficência... mas foram alcançados pela loucura desse mundo. Foram destruídos pela intolerância, pela ganância, pelo absolutismo, pelo poder do dinheiro, pelo interêsse das grandes empresas... Eu pergunto, se os sequestradores são mesmos tão corajosos assim, por que não sequestram o Colin Powell, o George Bush, o Donald Rumsfeld ou então alguns dos generais???
Tempos cruéis esses em que vivemos. Os fundamentalismos religioso, político e econômico... tornam-se cada vez mais violentos. Todos eles se acham no direito de impor a verdade de seus credos aos infiéis!! É o caso de Bush e Bin Laden, os quais, alguns dizem, curiosamente estão interessados na mesma coisa... a família Bush e a família Bin Laden, lado a lado (ou seria laden a laden?). O islamismo, o judaismo, o cristianismo, o globalismo e outros ismos...
Na realidade mortes violentas impostas por um regime autoritário, pelo crime organizado, por terroristas, por loucos, por seitas e religiões, por sultanatos absolutos, por tribos e etnias rivais, enfim... por variados grupos 'humanos' sobre pessoas excelentes são uma constante na história mundial. Pessoas pagam com a vida pelas suas contribuições à humanidade.
Até mesmo no cristianismo, a religião do amor, vemos essa espécie de intolerância. E não é de hoje. Hilário de Poitiers escreveu ao imperador Constantino queixando-se de que...
[...] todos os anos, não, todas as

luas, criamos novos credos para descrever mistérios invisíveis. Arrependemo-nos

do que fazemos, defendemos aqueles que se arrependem, anatemizamos aqueles que antes defendíamos. Condenamos as doutrinas dos outros em nós mesmos ou as nossas nas dos outros; e, retalhando-nos mutuamente uns aos outros, causamos a ruína de todos.
Citado por Joan O'Grady, em

Heresia
Não sou pós-moderno. Pelo menos penso que não sou. Mas defendo o direito das pessoas pensarem e poderem dizer o que pensam. Acredito na tolerância. A imposição de convicções sobre todos indiscriminadamente, utilizando a força das armas ou do dinheiro, a manipulação psicológica ou outro meio de força é desumano, é diabólico.
Bem, por hoje é só.
Tchau.

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