Uma Tradução Livre [minha] de M. Jamie Ferreira, Transforming Vision: Imagination and Will in Kierkegaardian Faith (Oxford: Clarendon Press, 1991), p. 6 e 7]
A metáfora de um 'salto de fé', a qual tem sido popularmente usada por muitos - às vezes numa defesa apaixonada da fé e outras vezes como um exemplo paradigmático da impossibilidade de defesa (ou irrelevância irresponsável) de tal fé - é provavelmente o elemento mais largamente reconhecido com uma caracteristica distinta de um relato 'kierkegaardiano' da transição para a fé religiosa. Tanto nos círculos populares como eruditos o 'salto' kierkegaardiano tem sido usualmente entendido em termos de um ato de 'força de vontade'. Sem dúvida, C. Stephen Evans sugeriu em um recente artigo que um 'quadro típico' da 'visão kierkegaardiana da fé cristã' é que 'ela requer um "salto de fé" [através do qual] auxiliado pela graça divina, o crente leva, através de um heróico ato de fé, a si mesmo a crer naquilo que ele sabe ser um absurdo'. (1) Terence Penelhum, por exemplo, parece aprovar uma tal descrição quando ele escreve que 'Em termos puramente humanos isso pareceráser a aceitação deliberada de um desvio do impossível lógico por ato de vontade', porque para 'dar um salto assim precisamos de um ato de vontade'. (2) Louis P. Pojman similarmente lê Kierkegaard com um exemplo de um 'volicionista descritivo [e prescritivo]' - aquele que defende o ponto de vista 'que podemos [e algumas vezes deveríamos] obter crenças e deduzir crenças diretamente a partir de um ato de vontade' (3).
Em razão disso, o 'salto' ou 'decisão' falado por Climacus em dois dos principais trabalhos de Kierkegaard é visto como uma escolha - ou para por o entendimento de lado ou para abraçar o Paradoxo Absoluto de Deus no Tempo - o qual, embora seu caráter não seja explorado, é tratado por comentaristas como se fosse uma auto-consciência intencional, propsital, deliberada, ou um 'ato de vontade' reflexivo ou de 'volição'. (4) (do lado do agente) através do qual a pessoa seleciona de uma variedade de opções alternativas. Essas opções são vistas pelo agente como possibilidades igualmente 'reais', e o salto ou a decisão é visto como algo ainda temos que fazer (para ultrapassar uma falha) depois que estivermos totalmente consciente das opções. A força de um tal conceito de salto ou decisão é eliminar a possibilidade de um alinhamento não-intencional com uma ou outra opção, frequentemente visto como sendo uma escolha contra opções mais atrativas.
(1) -'Does Kierkegaard Think Beliefs Can Be Directely Willed?', International Journal for Philosophy of Religion, 26 (December 1989), 182. Evans [...] também é um crítico de tal posição.
(2) - God and Skepticism: A Study in Skepticism and Fideism (Dordrecht, 1983), 82.
(3) Riligious Belief and the Will (London, 1986), 143. Ele argumenta que 'entre os filósofos não-católicos que temos estudado, S. Kierkegaard é o volicionista mais radical, considerando cada crença como uma resolução da vontade' (p. 146).
(4) A narrativa 'volicionalista' à qual eu me referi não precisa aceitar (embora algumas possam fazer isso) o mito das 'volições' criticado por Gilbert Ryle: a saber, volições como sendo um ato mental privado que é a ação 'real', precedendo e causando o comportamento observado (The Concept of Mind (New York, 1949), 62-9). Desde que, como Ryle, eu distingo entre ação 'voluntária' e 'intencional' ou ação feita 'com propósito' (p. 70), eu também argumento aqui (não contra a idéia de uma transição voluntária, mas) contra o entendimento de transição como um ato feito 'com propósito' ( uma escolha intencional entre alternativas as quais são igualmente atrativas); tal modelo de decisão (mesmo se não aderir à noção estrita de 'volição') é mais apropriado às decisões do tipo fazer X ao invés de decisões 'que' X, dos quais o último tipo eu tomo para constituir a verdadeira transição para fé. Assim eu me oponho a ambas as maneiras de ver a transição - nenhuma delas é consistente com as várias narrações de experiências de conversão e nem consistentes com a narrativa de Climacus da transição (à qual é reforçada pelas próprias entradas de Kierkegaard em seu Diário).
William Alston assevera que embora as volições sejam mitos, às vezes as ações são 'precedidas por decisões não-publicamente observáveis, intenções, ou resoluções para executar o ato' ('The Elucidation of Religious Statements', in Process and Divinity, eds. William L. Reese and E. Freeman (LaSalle, Il., 1964), 436). Penso que seja qual for a decisão não-observável publicamente que possa ocorrer no caso da transição para a fé, ela deve se conformar ao modelo de decisões 'que' X é o caso.
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