Thursday, September 6, 2007

RELENDO PAUL TOURNIER

Fiz uma nova leitura do livreto "Para Melhor Compreender-se no Matrimônio", de Paul Tournier, da Editora Sinodal, e criei um resumo das idéias que me vieram à mente. Depois resolvi transcrever alguns textos do livreto para comentar. E então, achei uma boa idéia postá-lo aqui. Pode ser que desperte o interesse em alguém de conhecer a pequena, mas profunda obra de Paul Tournier.

Para quem não conhece, Paul Tournier foi um cristão médico e psiquiatra suíço, nascido em 1898 e morto em 1986. Começou sua vida profissional como médico em Genebra e se preocupava com a medicina integral. Publicou vários livros sendo que, em português, temos os seguintes: Culpa e Graça, Os Fortes e Os Fracos, Mitos e Neuroses e o livreto Para Melhor se Compreender no Matrimônio. Mais detalhes sobre o autor podem ser encontrados em http://en.wikipedia.org/wiki/Paul_Tournier.

Citei livremente alguns parágrafos e inseri alguns comentários pessoais. No final, fiz uma relação de 10 pontos que me chamaram a atenção nessa releitura. Isso de maneira alguma fecha a questão em torno desse profícuo livreto. Talvez você fique interessado em fazer a sua própria relação.

"Escutem só as conversações deste mundo, seja entre povos ou casais. Em sua maior parte são diálogos de surdos. Cada qual fala sobre tudo para expor suas próprias idéias, para justificar-se, fazer-se valer e acusar o outro. São bem poucas as trocas de opiniões que dão testemunho de uma vontade real de compreender o parceiro." [7]

As pessoas estão centralizadas em si mesmas. Giram em torno de seu próprio umbigo. Todos falam ao mesmo tempo. Ninguém quer se dar ao trabalho de ouvir o outro com atenção.

"Toda pessoa frustrada em suas esperanças tem a tendência natural de lançar sobre o outro a responsabilidade deste fracasso: a culpa é do outro! Isto é muito mais fácil que investigar sua própria falha. Mas é absolutamente inútil. É um caminho que só desemboca em pesar, rebelião e amargura, nas surradas repreensões mútuas que se dirigem indefinidamente os esposos." [9]

Todos buscam a felicidade e se desesperam quando não a conseguem experimentar. Então, nós procuramos alguém para colocar a culpa, para transferir a culpa pelo fracasso, já que é doloroso demais aceitar a nossa própria culpa pelo nosso fracasso.

"Se você crê conhecer sua mulher ou seu marido, aí é que você renunciou a descrobrí-la/o realmente. A imagem que você fez dela ou dele estará cada vez mais distante da realidade de sua pessoa." [12,13]

Uma imagem que fazemos de alguém é semelhante a uma pintura e depende da nossa própria visão interpretativa do outro. Nós até mesmo projetamos sobre a pintura nossas próprias expectativas. Só Deus conhece realmente o nosso interior. Como Ele próprio diz a Samuel no Antigo Testamento: "Deus não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, Deus, porém, vê o coração". Uma imagem pois é uma camisa de força, uma prisão na qual encarceramos o nosso próximo sem dar-lhe nenhuma chance de se mostrar como realmente é.

"Que é esse temor? Creio que são dois. Primeiro, o temor de ser julgado, criticado. É um temor universal e muito maior do que geralmente se supõe. De nossa mulher ou de nosso melhor amigo, de todos aqueles a quem mais amamos e estimamos, é de quem mais tememos um juízo crítico. Justamente porque queremos ser também estimados e amados." [17]

Há uma ambigüidade em cada um de nós com relação a sermos conhecidos. Queremos ser conhecidos. Tememos nos revelar ao outro. Tememos o julgamento, a crítica. É duro suportar a crítica do nosso cônjuge. Especialmente se essa crítica não parte de um coração amoroso.

"Então este esposo se sente julgado, condenado, criticado, e disso cada um tem medo, precisamente porque nenhum de nós está satisfeito consigo mesmo. Todos somos particularmente sensíveis às censuras que fazem com que nos achemos a nós mesmos estúpidos, lembrando defeitos que não pudemos corrigir apesar dos esforços mais sinceros." [18,19]

É claro que esse comportamento varia de indivíduo para indivíduo, mas, geralmente, estamos cônscios das nossas falhas. Somos críticos de nós mesmos. Gostaríamos de mudar, estamos insatisfeitos com as nossas limitações. Tudo o que não queremos é que alguém venha colocar o dedo na ferida que já está doendo bastante.

"Há ainda um outro temor: é o temor aos conselhos. ... Este marido quis começar a abrir-se sobre suas preocupações, mas diante deste tom de arrogância categórica ele vai se fechar, esmagado, antes de ter podido fazer compreender à esposa todos os aspectos de um problema delicado. A intenção da esposa era excelente; mas ela destruiu tudo porque respondeu apressadamente em lugar de escutar, paciente, e de procurar compreender." [19]

Por que será que as esposas, de uma maneira geral, estão tão definitivamente certas de que entendem a situação pela qual passamos antes mesmos que nós, os maridos, possamos apreendê-las? Há tantas variáveis, tantos caminhos e desvios, mas elas se apresentam com tanta segurança. Como é possível? Falar antes de compreender todas as implicações é temerário.

"Mas para consolar não é necessário dizer grande coisa. Basta escutar, compreender e amar. ... Em todo marido, mesmo o mais eminente e aparentemente mais forte, resta ainda algo de criança que necessita ser consolada." [19]

Escutar, compreender e amar. Eis aí um segredo que pode mudar o relacionamento.

"Aliás, [os homens] sentem-se molestados frequentemente tanto pelos conselhos como pelos julgamentos: uma mulher à qual tudo parece simples, que proclama com segurança como ele deve proceder em todos os assuntos, dá ao marido a impressão de ser tratado por ela como incompetente, e isso marido algum suporta." [20]

Geralmente não é incompetência do marido, mas é a mulher que não sabe até onde vai sua competência.

"Para compreender realmente é necessário escutar e não responder, escutar longa e mui atentamente. Par ajudar alguém a abrir-se é preciso deixar-lhe tempo, interrogá-lo sóbria e delicadamente para fazê-lo expor melhor o que tem experimentado e, sobretudo, não pretender saber mais que ele, nem dizer logo o que teria sido conveniente fazer em seu lugar, sob pena de ele fechar-se novamente. Aliás, a compaixão excessiva também pode fechá-lo, tão sutil é a alma humana." [20,21]

De fato, não existe coisa mais exasperante do que uma mulher que sempre dá a impressão que sabe mais do que o marido em tudo.

"Entretanto, os próximos [aqueles que estão próximos] já formaram para si uma imagem preconcebida daquele que fala, e essa imagem sempre é falsa em algum sentido e distorce também a interpretação de suas palavras. ... Temos que que despojar-nos da imagem que temos formado dele, para que ele recupere a facilidade de se abrir, como se viesse ter conosco pela primeira vez." [Acho essa capacidade de restaurar a imagem verdadeira do outro em nós quase que um milagre.] [22]

Pois é, a questão da imagem de novo. Quem se abriria verdadeiramente se soubesse que seria recebido de maneira preconceituosa?

"Desde o momento quando uma mulher, ou um homem, tem a impressão de que seu cônjuge formulou sobre ele um diagnóstico moral do qual nada o fará desistir, fica impossibilitada toda verdadeira abertura, toda expressão profunda de si mesmo." [23]

E, depois de algumas décadas de casamento, qual o cônjuge que já não foi fossilizado em uma imagem preconcebida pelo outro? O que parece que esquecemos é que isso inibe a verdadeira comunicação.

"Em certos casos de aconselhamento ou de doença, a intervenção de um orientador da consciência ou de um médico pode ser indispensável. Frequentemente, porém, a esposa pode levar a mesma ajuda libertadora ao marido, ou um marido à esposa, desde que somente escutem com a mesma extrema atenção que lhes prestaria um pastor, sacerdote, psicólogo ou médico." [Parece simples, não é? Mas penso que exige muito mais de nós que ouvimos nosso cônjuge do que supõe a nossa vã filosofia.] [25]


"A essência mesmo de toda cura psicoterápica é essa relação de confiança que permite dizer tudo como uma criança pode dizer tudo a sua mãe." [Excelente imagem essa, nossa mãe [às vezes era um pai] era nosso refúgio quando éramos preteridos, desprezados, quando sofríamos alguma dor profunda de rejeição.] "Ninguém pode evoluir facilmente neste mundo e expandir-se sem sentir-se compreendido ao menos por uma pessoa. Incompreendido, o homem perde a confiança em si mesmo, perde a confiança na vida, até em Deus; bloqueia-se, retrocede." [25]


[ Depois que cai a ficha no casamento, a direção da coragem é: ] "aceitar decididamente a realidade: aceitar seu cônjuge tal qual é, desprovido da auréola de encantos de que se o tinha rodeado; e tratar de compreendê-lo! Sim, tem defeitos, tem problemas que não consegue resolver. Ele mesmo não se compreende e reage muito mal quando se lhe denunciam as faltas, precisamente porque não se sente com forças para superá-las. Pode-se, porém, ajudar de outra maneira muito distinta: justamente amando-o, não tanto por suas qualidades como por suas dificuldades, compreendendo-o, compreendendo o que lhe faltou desde sua infância, o que ainda lhe falta, e dando-lhe." [É preciso que o amor seja verdadeiro para se ter uma atitude assim!] [28]


"Os seres humanos são muito diferentes uns dos outros. É uma verdade que salta à vista. Todavia, muito poucas pessoas querem realmente admiti-la, sobretudo quando se trata de sua esposa ou esposo. Que tem outros gostos, outras atitudes, outras aspirações, isso é considerado, à primeira vista, um desafio, uma repreensão, uma ofensa, uma provocação. São as mesmas reações que vemos nos pais quando descobrem em seus filhos adolescentes tendências que eles reprovam enfaticamente. Chegar a compreender que o cônjuge é muito diferente da gente, exige, pois, uma caminhada considerável." [Ou seja, é uma atitude de uma pessoa madura.] [30]

Ser um indivíduo, ter uma personalidade definida. Isso é riqueza e não deveria ser destruído. O ideal seria o respeito mútuo e a somatória dos pontos fortes para fortalecer a relação.

"Para se compreender é necessário interessar-se pelo que interessa ao outro, e compreender por que lhe interessa. É falando que se sente que o outro se interessa; é falando, pois, que este pode compreender cada vez melhor o interesse. Então, o horizonte de cada um dos parceiros se amplia em lugar de se reduzir. A verdadeira compreensão sempre implica a gente exceder-se a si mesmo. Então o lar pode servir de raiz à profissão, e a profissão nutrir a vida espiritual do lar. A oposição de que padecem tantos casais pode ser resolvida. Mas essas diferenças entre homem e mulher vão se encontrar sempre, até dentro do próprio domínio que os une: no amor." [36,37]


"Para o homem, o amor é um impulso muito poderoso, mas temporário, sobretudo o sexual, todo feito de desejo e de paixão. Depois, suas preocupações o exigem em outra parte, e a mulher tem a impressão de ficar abandonada. Falo, naturalmente, dos homens bem viris. Aqueles que o se interessam pelo amor nem sempre o são!" [38]

Eis aí uma diferença entre homem e mulher que na prática é difícil de ser trabalhada. Não saber lidar com essa diferença pode levar a sofrimentos intensos para as mulheres.

"Muitas mulheres, outrossim, têm dificuldades para compreender as confidências de seus maridos sobre suas tentações sexuais. Que um homem tão eminente, tão honrável e tão inteligente seja atacado por tentações tão elementares e vulgares – isso escandaliza profundamente a esposa. Ela pensa, sobretudo, que, se ele a amasse verdadeiramente, não pensaria em outras mulheres, se bem que é justamente uma grande prova de amor de sua parte de se abrir assim a ela. Mas esse marido não se sente compreendido; sente-se julgado, desprezado! Vai fechar-se dentro de si mesmo. Doravante ele se cuidará de fazer tais confidências que cobrem de sombras a unidade conjugal. E este véu de silêncio poderá comprometer sua união mais que o instinto sexual. A melhor proteção contra as tentações sexuais é poder falar francamente delas e encontrar a compreensão da esposa, por certo não uma cumplicidade, senão uma ajuda eficaz e carinhosa para triunfar." [40]

Que bom se os cônjuges pudessem superar essas barreiras e manter a porta do diálogo aberta. Quantas crises e ciladas poderiam ser evitadas.

[Aqui está uma reflexão da qual eu já me dei conta há muito tempo e estou convicto da veracidade dela]. "No domínio sexual, bem como em muitos outros, tais como o orgulho ou a honestidade, as mulheres são, em termos gerais e a grosso modo, mais morais do que os homens." ... "Todavia, não há aberração pior do que jactar-se de suas virtudes morais e crer-se isento dos pecados de que se acusa os outros. Mas, falando à maneira do mundo, diria que frequentemente o marido é menos moral que a esposa. Ou, pelo menos, que o homem em geral é mais consciente de seus pecados que a mulher." [Penso que ambas as coisas, com ênfase nessa última.] "Ele é muito consciente de suas cobiças sexuais, de mentir a sua esposa ou a seu concorrente, de enganar o fisco ou de estar demasiado orgulhoso do que faz. Talvez seja por isso que está menos disposto a ir à igreja que sua mulher: ali se sente menos cômodo, julga-se um pouco fariseu ao mostrar assim publicamente sua piedade, quando sabe muito bem que sua vida real não está em ordem e não se sente em condições de remediá-la. Talvez seja também por isso que na igreja se vêem frequentemente homens pouco viris, pouco empenhados na batalha da vida, funcionários, professores, que mais facilmente podem levar uma existência aparentemente impecável." [ooops! Pegou pesado agora...] [41] ...


"O resultado é que, geralmente, o homem está mais carregado de verdadeiros sentimentos de culpa e que, portanto, lhe custa mais abrir-se a sua mulher do que a ela parece por isso se considera, ela mesma, mais virtuosa." [O que é um comportamento detestável numa mulher! É muito difícil ao homem aturar esse complexo de virtuosidade feminina.] "Como pode compreendê-lo ela que tem uma conduta tão meritória? Ele teme que ela o menospreze. Ela lhe parece um policial, uma encarnação da lei moral." [E eu que pensava que somente eu tinha percebido isso!] "Talvez seja por isto, também, que lhe custará mais abrir-se a um pastor ou a um sacerdote, encarnação, estes também, aos seus olhos, da moral." [Gostaria de acrescentar que para um pastor, consciente das suas fraquezas, é muito difícil sustentar publicamente esse papel de "encarnação da moral", o sentimento de culpa é avassalador... A igreja deveria ser o lugar onde os pecadores não precisassem se camuflar de impecáveis, nem os pastores!] "E provavelmente falará mais facilmente com uma mulher de nível social e cultural inferior, uma mulher um pouco leviana e que, no fundo, julga inferior a sua esposa, mas com a qual se sente mais à vontade, uma mulher que o admira e aceita tal como é, inclusive com tudo aquilo que ele mesmo repudia em seu comportamento." [E, aqui, reside o perigo!] [42]

"As pessoas sempre sente-se julgadas pelas aparências. Mas essas aparências de hoje são as consequências remotas de uma cadeia de reações que remontam a feridas antigas. Todas as pessoas são, elas mesmas, ao mesmo tempo vítimas e culpadas." ... "As reações mais trágicas suscitam fortes resistências contra toda tomada de consciência de si mesmos" [o que dificulta o trabalho de psicoterapia...]. "Mas jamais os psicoterapeutas, ainda que fossem dez vezes mais numerosos, chegarão ao fim com todos os sofrimentos morais das pessoas., tão pouco como bastam para isso os pastores ou padres. O que faz falta, então, é que todos nós nos tornemos, em certa medida, psicoterapeutas uns dos outros." [levai as cargas uns dos outros?]. [44]


[A sagrada tarefa de ouvir com atenção!] "A ciência da psicoterapia consiste justamente em escutar, escutar longa e apaixonadamente, amar e respeitar, tratar de compreender, de progredir das aparências para as causas ocultas e remotas." [Por isso acho muito difícil que os cônjuges possam ajudar realmente um ao outro: acontece que eles são parte dessas experiências passadas uns dos outros. É difícil para um ser humano tornar-se um ouvinte atento e ao mesmo tempo manter uma certa "neutralidade" para não julgar ou não "aconselhar" prematuramente. Eles se sentem ameaçados na medida em que penetram no terreno pantanoso das fraquezas do outro. A solução seria negar-se a si mesmo e confiar em Deus para suprir suas necessidades que temem não serão supridas pelo outro que se atola em si mesmo. Por outro lado, aquele que é aconselhado tem dificuldades em receber de maneira isenta os "conselhos" do outro cônjuge pois desconfia que eles sejam fruto dos interesses do outro. Como fazer, então?]. "A experiência cotidiana dos psicólogos é que uma pessoa conta sua vida, primeiro em forma apressada, simplificada, como um curriculum vitae. Neste quadro demasiado esquemático ainda não se compreende muita coisa. Mas não se deve detê-la, porque depois de ter dito tudo o que lhe parecia importante, tornam a subir em seu espírito outras recordações mais carregadas de emoção. Amiúde são incidentes que parecem tão insignificantes que a pessoa não pensaria em relatá-los sem ser para isso encorajada pela extrema atenção com que é ouvida." [Orientação preciosa essa do Paul Tournier] [44,45]


[Continuemos a seguir as orientações do Paul:] "Então, pouco a pouco, ela mesma descobre sua importância. Posso compreendê-la porque ela mesma começa a compreender-se melhor. Dá-se conta da importância de suas primeiras impressões da infância, da forma como tomou consciência de si mesma e do mundo, das relações que teve, sobretudo, com seus pais e irmãos e com os demais personagens que foram entrando pouco a pouco em seu universo. A psicologia moderna nos ensinou o papel decisivo que desempenham os acontecimentos dos primeiros anos, quando se determina para toda a vida a atitude de cada pessoa com as demais. Muitos destes acontecimentos estão esquecidos. Mas, uma vez solta a língua, aparecem reminiscências ou sonhos que os evocam em sua linguagem velada." [Acho que todos nós temos a nossa "dor profunda" que muitas vezes não é inteiramente consciente, apenas está lá... Cada ser humano adulto guarda dentro de si, se prende, por assim dizer, ao meninozinho ou meninazinha que foi um dia e que teve seus relacionamentos bons e maus que fixaram indelevelmente o padrão de reação em suas personalidades. Ansiamos por um ser adulto amoroso que pegue em nossas mãos, olhe fundo nos nossos olhos e nos diga docemente: "Conte-me sua dor."][45]


[ O que Paul vai dizer agora é o que eu acho muito difícil de realizar. Creio que, sem uma supervisão competente e orientadora é mesmo impossível e traz grande frustrações! ] "Portanto, é inútil esperar compreender a esposa ou o esposo sem escutar, pacientemente e com interesse muito vivo, seus relatos de infância e juventude. Que aventura maravilhosa, prodigiosa, quando essa exploração, esse descobrimento de si mesmo e do outro se pode fazer entre cônjuges! É então que se realiza o que todos os jovens esperam ao se casarem: ajudar-se eficazmente um ao outro. E não é somente uma ajuda libertadora para cada um deles, senão uma espécie inteiramente nova de intimidade que vem iluminar o matrimônio e fazer possível a construção de uma felicidade maior e mais fecunda." [Seria fantástico se isso fosse realmente possível de ser realizado por cônjuges normais! Agora, vejamos uma narrativa viva de algo assim: ] "Perdi o meu pai à idade de três meses. Quer dizer que nunca o tinha chorado, que não estava ciente da frustração que tinha marcado minha vida. Recordo o dia em que, depois de uma longa conversa com minha esposa em uma atmosfera de recolhimento diante de Deus, de repente rompi em soluços e descarreguei assim uma carga emocional por longo tempo reprimida." [Essa realidade da existência de cargas emocionais reprimidas por longo tempo faz parte da nossa estrutura humana...] "Nem eu nem minha esposa sabíamos então que ela havia desempenhado naquele dia o papel de psicoterapeuta que deveria abrir-me uma carreira de psicoterapia." [45,46]


[Paul Tournier pensa que o sentimento de unidade do casal só pode ser alcançado quando se está seguro de não ocultar mais nada um do outro. Mesmo assim ele diz que ainda haverá muito a dizer. Ouçamo-lo: ] "Não é um estado final atingido, mas antes um movimento que se desenvolve sem cessar. Ao experimentar a riqueza da compreensão mútua, aumenta a paixão de compreender melhor ainda, e nada ajuda a abrir-se ainda mais do que sentindo no companheiro essa paixão por compreender-nos." [Aqui me parece que ele descreve uma utopia que, na sua opinião pode ser alcançada entre os cônjuges: ] "Os esposos retornam juntos aos lugares de suas respectivas juventudes. Voltam a ver juntos aquela árvore à qual a menina ia falar todos os dias como a um confidente íntimo, aquele montículo sobre o qual o menino construía um mundo de sonhos que prefigurava a obra de toda sua vida." [Aqui ficamos indecisos: é o psicoterapeuta ou o poeta Tournier quem está falando? É um desejo seu ou é algo possível de ser alcançado no casamento? Conheço algumas pessoas que rejeitariam essa idéia de transparência substancial como fábula. E nós, o que achamos disso?] [46]


[O que parece é que Tournier não está apenas discorrendo sobre uma série de preceitos que devemos saber para termos uma melhor compreensão do nosso casamento. Ao contrário, ele está indicando um caminho que tem que ser percorrido para se chegar a alguma lugar. Se não, vejamos como ele conclui esse capítulo: ] "Mas não há somente lembranças belas; não somente sofrimentos causados pelo destino ou pela culpa e incompreensão de outros. Há tudo aquilo do qual a gente se envergonhava, tudo aquilo que se gostaria de apagar do passado e pelo qual a gente se sente responsável." [Aqui eu fico com a impressão que algumas pessoas não tiveram nada no passado do que hoje se envergonham. É claro que algumas pessoas tiveram uma vida mais complicada do que outras. Mas, algumas pessoas parecem que ignoram totalmente essas coisas que se gostaria de esquecer. Será que é assim mesmo ou trata-se de conhecimento reprimido??] "Então o diálogo conjugal toma um sentido de confissão. Naturalmente isto não significa substituir a confissão ritual, no confessionário para o católico, no culto público (ou na confissão particular) para o protestante." [Existe ainda essa prática nas igrejas protestantes? A mim me parece que não!] "Mas se, por um lado, é menos válida, por outro o é mais. Porque é muito mais difícil revelar nossas faltas àquele com quem compartilhamos a vida e cujo amor e estima valorizamos ao máximo." [Concordo com Paul Tournier, como já expressei antes.] "E depois pode haver reciprocidade: frequentemente uma confissão corajosa de um dos cônjuges provoca a de outro. E o gozo imenso que então os inunda é um reflexo da imensa graça que Deus dispensa à Igreja." [É preciso, no entanto, que essas confissões sejam à luz do perdão que cada um recebeu de Deus. Alguns casais foram desfeitos porque tentaram esse tipo de transparência na própria capacidade humana e não suportaram.] [46, 47]


[ Terminar esse resumo por aqui seria um anticlímax, seria pessimista. Vejamos o que Tournier acrescenta no final: ] "Mas a solução radical dos problemas [do casamento] exige uma transformação mais profunda, de ordem espiritual. ... É preciso um contágio novo que leve a uma mudança das disposições do coração, um novo sopro, um sopro do Espírito Santo. Nenhuma força do mundo pode tocar mais profundamente a pessoa em seu coração, para fazê-la, enfim, mais apta a compreender o outro. Ele descobre as suas responsabilidades. Compreende que fazia mal àquele a quem não compreendia; que não compreender, não tratar de compreender, era encerrar-se em cegueira egoísta. "Senhor, faze que procure mais compreender que ser compreendido." [50]


[Se isso parece assim tão simples, por que é tão raro, pergunta Tournier? ] "Achar o segredo da compreensão, o segredo da vida, é um acontecimento interior; não mais uma aquisição de conhecimento novo, mas um descobrimento, uma conversão. É algo que pode suceder no momento preciso em que se desespera, e geralmente de maneira bem distinta da que se imaginara. Pode-se ter lido muitos livros, escutado muitos sermões, acumulado muito saber, e, de repente, é uma pequena palavra que abala, um encontro, uma dor, uma cura, um olhar ou um espetáculo da natureza de que Deus se serve para atingir o homem." [52]

Não se trata de mera técnica, mas vida. É uma questão existencial.

"Sim, todo o bem procede de Deus, é um presente de Deus. Toda libertação da solidão, do medo, do sofrimento ou do remorso é um efeito do amor misericordioso de Deus, mesmo se aquele que se beneficia deste amor e aquele que tem sido seu instrumento não se dêem conta disso, nem o primeiro, nem o outro, e atribuam todo o mérito a si mesmos. ... Certamente, podem falar de questões filosóficas e religiosas, teológicas e eclesiásticas. Mas abrir-se sobre suas próprias convicções, suas próprias experiências, suas dúvidas, seus sentimentos, falar de sua relação pessoal com Deus, é outra coisa; é isso que constitui o vínculo supremo entre dois cônjuges. Mas é algo raro." [52, 53].


Depois de reler o livreto de Tournier, posso concluir que:


  1. Não procurar compreender o cônjuge é uma expressão do egoísmo;

  2. Cada cônjuge deve se armar do desejo de compreender o outro ainda que não seja recíproca a disposição;

  3. Há uma solidão, um profundo sofrimento em não se poder compartilhar a vida com o outro;

  4. Semelhantemente há uma profunda alegria guardada para cônjuges que conseguem se compreender profunda e mutuamente;

  5. É muito mais difícil compartilhar a vida interior com o cônjuge do que com um profissional;

  6. Há diferenças entre o homem e a mulher, e há diferenças entre os seres humanos que precisam ser conhecidas e respeitadas;

  7. Se eu quero ser ouvido, compreendido, tenho que estar disposto a ouvir e compreender, pois é dando que se recebe;

  8. Ouvir os relatos de infância, descobrir o menino(a) dentro do outro e dentro de si é importante para compreender-se;

  9. É preciso escutar longa e apaixonadamente, amar e respeitar, tratar de compreender, de progredir das aparências para as causas ocultas e remotas;

  10. É preciso rejeitar e destruir imagens preconcebidas do outro: novo começo.

Espero que você, assim como eu, tenha sido edificado com essas reflexões de Tournier. Se quiser se beneficiar mais, leia o livro.


Wednesday, June 27, 2007

Preservando o Direito da Manifestação do Pensamento

Art. 5° Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

  1. homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;
  2. ninguém será ...
  3. ninguém será...
  4. é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
  5. é assegurado...
  6. é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias;
  7. é assegurada...
  8. ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;
  9. é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
[Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, Titulo II, Dos Direitos e Garantias Fundamentais, Capítulo I, Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos]

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.

§ 1° - O casamento é civil e gratuita a celebração.
§2° - O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei.
§3° - Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.
[...]
Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, e à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência , discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

[Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, Titulo VIII, Da Ordem Social, Capítulo VII, Da Família, da Criança, do Adolescente e do Idoso]

"Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo" Voltaire

Afinal de contas, como é que alguém pode manifestar livremente o seu pensamento e não ser violado na sua liberdade de consciência e de crença, garantidos pela Constituição da República Federativa do Brasil, se aqueles que deveriam ajudar a defender a constituição pretendem aprovar uma lei que vai de encontro com a Constituição? Ou não vai? Se alguém é impedido por uma lei de manifestar publicamente seu pensamento, baseado na sua consciência, não existe aí uma contradição, não existe aí uma lei que é claramente inconstitucional? Como é que os nossos legisladores pretendem discutir e aprovar uma lei tão contraditória assim? Foi para isso que nós os conduzimos ao lugar onde eles estão? É dessa maneira traiçoeira que eles estão representando os nossos interesses? Eles estão a soldo de quem?

No site http://www.mj.gov.br/noticias/2005/Novembro/rls101105_homofobia.htm encontrei a seguinte notícia:

Especialistas recomendam aprovação de lei contra homofobia

Brasília,10/11/05 (MJ) - A Câmara Técnica de Segurança Pública responsável pela elaboração e avaliação de políticas de segurança pública a gays, lésbicas, transgêneros e bissexuais enviou essa semana à Câmara dos Deputados um texto de recomendação para que seja aprovado imediatamente o Projeto de Lei Nº 5003/01, da deputada federal Iara Bernard, que criminaliza a homofobia, a exemplo da Lei Federal que criminaliza o racismo. Segundo o diretor de Pesquisa, Análise da Informação e Desenvolvimento de Pessoal da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça (Senasp), Ricardo Balestreri, o objetivo do grupo é contribuir para a redução dos crimes homofóbicos e combater a impunidade no país. “É necessário termos políticas permanentes na orientação ao respeito dessas minorias”.

Diz a reportagem que a Senasp, um órgão governamental, "foi criada em 11 de fevereiro de 2005, por meio da portaria Nº 1, em consonância com o Programa Brasil Sem Homofobia, e reúne especialistas em segurança pública e ativistas das lutas pelos direitos dos homossexuais".

Por que o Brasil privilegia "algumas minorias" em detrimento da grande maioria? Não se trata de proteger os homossexuais, para isso existe a lei e a polícia. Trata-se de criar o "delito de opinião", o "crime-idéia", "1984". Como é que um cidadão não pode ter a liberdade de criticar uma idéia, um conceito, uma forma de comportamento, um desvio de conduta? Por que é que somos obrigados a aceitar a opinião de uma minoria sobre o que é uma família, o que é um casal, o que é um relacionamento conjugal natural? Por que é que eu tenho que aceitar o ponto de vista homossexual? Cadê a minha liberdade de pensamento? Cadê a minha liberdade de consciência? Cadê a minha liberdade de culto?

Daqui a pouco teremos também uma lei semelhante para proteger os criminosos de colarinho branco, os anões do orçamento, a máfia das ambulâncias, etc, etc. Infelizmente, talvez isso não acontecesse porque eles não podem mais ser enquadrados como minoria: já conquistaram a maioridade! Tem mais ladrões mamando na teta do governo do que na caverna de Ali Babá!

E pensar que os parlamentares estão lá para defender a Constituição....

Se os homossexuais querem continuar na sua prática distorcida de relacionamento sexual, de relacionamento conjugal, eles que o façam, mas, em nome da Constituição, não me peçam que bata palmas de alegria. Não! Eu quero poder criticá-los livremente! Eu sou um cidadão livre deste País. Será que sai governo e entra governo e nós continuamos refém das minorias?

Acho que o nosso governo, nossos parlamentares têm sido muito bem sucedidos em criar chifre na cabeça de cavalos. O racismo era privilégio de uns poucos no Brasil, agora está se tornando uma opção da maioria que não se conforma com essa lei de cotas. Se antes o povo vivia ombro-a-ombro, hoje já se olha com desconfiança para os privilegiados do racismo governamental. Seria o negro menos capaz para estudar? Seria o negro inferior? Besteira, o Brasil é um país onde a maioria porta genes miscegenados. Quem realmente é só negro no Brasil? Quem é só branco. Eu mesmo, branco por fora, não preciso fazer um teste de DNA para saber que tenho genes de índio, de negro e de europeu nas minhas veias. Por quê eu iria me valer dos 33% da minha raça negra numa universidade. Venho de uma família muito pobre e resolvi estudar para vencer na vida como qualquer outro da minha cidade natal.

Ao invés de cotas, por que não criar uma infra-estrutura decente e não-discriminatória no ensino médio? Eu estudei a vida toda em colégios estaduais, quando eles eram os mais procurados pelos cidadãos de valor. Estudei muito para passar no vestibular, pois não podia pagar um cursinho. Além disso eu estava servindo numa unidade militar de tempo integral. Eu me estressei no final do ano, mas passei no vestibular! Se o governo quer fazer alguma coisa decente melhore a qualidade do ensino médio, crie colégios estaduais, municipais que priorizem o ensino. Pague bem os professores! Não só os do ensino médio, mas também os do ensino superior. Parem de falar. É hora de agir. Chega de basófia!

Mas, voltemos à lei da mordaça!

Eu não concordo com tudo que Voltaire disse e fez, mas não posso deixar de admirar o conceito que ele passa quando diz estar disposto a defender até à morte o direito que alguém tem de livremente expressar as suas convicções! Mesmo que ele não concorde com uma só palavra do que o outro está dizendo. Isso sim, é coerente. Uma pessoa tem que poder ser criticada. Um movimento tem que poder ser sondado, esmiuçado, criticado. Isso é bom. Eles que se defendam com a força do argumento e não com o argumento da força. Ou será que eles não têm condições de se defender no campo das idéias? Ou será que eles, no fundo, sabem que estão numa canoa furada?

Acho que nós deveríamos levar muito a sério o que escreveu Olavo de Carvalho no JB Online:

Não creio que haja, entre os céus e a terra, nada que mereça imunidade a priori contra a possibilidade de críticas. Nem reis, nem papas, nem santos, nem sábios, nem profetas reivindicaram jamais um privilégio tão alto. Nem os faraós, nem Júlio César, nem Átila, o huno, nem Gengis Khan ambicionaram tão excelsa prerrogativa. O próprio Deus, quando Jó lhe atirou as recriminações mais medonhas, não tapou a boca do profeta. Ouviu tudo pacientemente e depois respondeu. As únicas criaturas que tentaram vetar de antemão toda crítica possível foram Adolf Hitler, Josef Stálin, Mao-Tse-Tung e Pol-Pot. Só o que conseguiram com isso foi descer abaixo da animalidade, igualar-se a vampiros e demônios, tornar-se alvos da repulsa universal.
Mais uma vez os parlamentares "bem-intencionados" conseguirão o milagre alquímico de fazer surgir chifre em cabeça de cavalo. Esse animal transgênico não terá a beleza do unicórnio, mas será parecido com um "cavaca" mistura assombrosa criada por força de lei.

É uma pena, aqui estou eu exercendo, no pouco tempo que me resta até a aprovação dessa famigerada lei, o meu direito de manifestar o meu pensamento, a minha convicção de consciência. Daqui a algum tempo, se não vingar o bom senso na Câmara e no Senado, eu não poderei mais dizer o que disse.

Gostaria de fazer um alerta citando um texto já conhecido de Martin Niemoller, pastor protestante, referindo-se às práticas desumanas ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial:

“Primeiro vieram buscar os judeus e eu não me incomodei porque não era judeu.
Depois levaram os comunistas e eu também não me importei pois não era comunista.
Levaram os liberais e também encolhi os ombros. Nunca fui liberal.
Em seguida os católicos, mas eu era protestante.

Quando me vieram buscar já não havia ninguém para me defender…”


P.S.: Acho que a primeira coisa que será amordaçada logo após a aprovação da lei é a Constituição da República Federativa do Brasil, que é homofóbica [pelo menos deveria parecer isso aos olhos daqueles parlamentares que militam para que a lei da mordaça seja aprovada], pois reza no seu § 3° do Art. 226, do Titulo VIII, Da Ordem Social, Capítulo VII, Da Família, da Criança, do Adolescente e do Idoso, o seguinte: "Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento."






Friday, March 16, 2007

Se há eleição, então por que proclamar o Evangelho?

A idéia da eleição, em palavras simples, é que, antes da fundação do mundo no qual vivemos, Deus amou a cada um dos eleitos e os predestinou para serem salvos e serem conformados à imagem de Seu Filho, o Senhor Jesus Cristo. Aqueles que não foram eleitos estão definitivamente perdidos e viverão eternamente debaixo da ira de Deus.

Não há um eleito que não venha a ser salvo e nem um não-eleito que possa se salvar. Todavia, ninguém sabe de antemão quem são os eleitos e quem são os não-eleitos. É um mistério guardado em Deus.

Sabe-se, contudo, que os eleitos responderão positivamente ao chamamento do Evangelho, isto é, quando eles forem confrontado com a mensagem de salvação das Escrituras eles, a seu tempo, se entregarão ao Senhor e Salvador e tornar-se-ão Filhos de Deus.

Os não-eleitos, por sua vez, jamais responderão positivamente à pregação do Evangelho. E se eles parecerem que responderam positivamente será apenas uma conversão temporária, não duradoura, e invariavelmente apostatarão da fé mais dia menos dia. No caso da 'conversão' de um não-eleito é possível constatar que ele não ama realmente a Deus, porque o amor a Deus só pode ser um amor responsivo: Deus tem que amá-lo primeiramente. Como ele não é um eleito, então não foi objeto do amor de Deus, pelo contrário sobre ele permanece a Sua ira.

Sendo assim, por que então evangelizar? Se não há um eleito que não venha a ser salvo e se não há um não-eleito que não venha a se perder, qual a necessidade da pregação da Palavra?

Primeiro, porque é um mandamento de Deus, pois pela pregação da Palavra é que vem a fé. Sem fé é impossível agradar a Deus porque Ele quer que aqueles que se aproximam dEle creiam que Ele existe e que se torna galardoador daqueles que O buscam. E ninguém tem esse tipo de fé em si mesmo, mas ela é dada pelo próprio Deus, no poder do Espírito Santo, pela instrumentalidade da Palavra.

Aparentemente, não adiantaria atormentar um não-eleito com o fogo do inferno. Afinal, ele não teria nenhuma possibilidade de deixar de ir para lá. Por outro lado, para que atormentar um eleito com o fogo do inferno se ele nunca iria para lá?

Parece que também um não-eleito jamais se interessaria pela salvação! Nunca haveria um não-eleito que dissesse: "gostaria tanto de ter sido amado e eleito por Deus, mas Ele não me elegeu." Nunca haveria um não-eleito que anelasse pelos Novos Céus e Nova Terra. Isso não faria parte da sua natureza caída. Ele, pela sua natureza, não seria atraído pela bondade de Deus.

Na realidade as Escrituras dizem que todos nós, quando nascemos de nossas mães terrenas, somos por natureza inimigos de Deus. Não queremos nada com Ele. Aliás, podemos até querer seus benefícios, mas a Ele mesmo jamais quereríamos. É por isso que Deus tem que atuar primeiro. Ele tem que chamar de maneira eficaz. Ele tem que dar ao discípulo a condição de responder afirmativamente ao chamamento.

Nesse caso, então, por que pregar a Palavra? Por que a urgência nessa tarefa?

Fiquei pensando na vida de um eleito ainda não salvo. Eu mesmo era alguém assim até os vinte e cinco anos. Embora de tendência religiosa, não me entregava ao Único Deus Vivo e Verdadeiro. Mas procurei por todo tipo de religião e seita que pude frequentar, até que um dia me rendi a Jesus Cristo. Então minha vida mudou. Minha perspectiva de vida mudou. Meus relacionamentos mudaram. As Escrituras começaram a fazer sentido. Antes eu só via inconsistências na Palavra. Meu casamento mudou. Antes quase cheguei a me separar de minha esposa.

Então, eu concluí o seguinte: quando estou diante de um não-convertido, é fato que eu não posso saber se ele é um eleito ou não. Qualquer que seja o caso, sei que a vida dele é sem sentido e sofrida. Isso por mais feliz que ele possa aparentar. Sei que a sua felicidade é como uma finíssima película de verniz sobre a madeira. Ele parece feliz porque suas circunstâncias funcionam como sedativo para o sofrimento e a falta de sentido na vida. Provavelmente ele é jovem, tem boa aparência, tem dinheiro, tem uma vida pela frente, tem um ideal de vida pelo qual ele se entrega prazerosamente... Mas, vem o dia em que algumas dessas coisas falham, ou várias delas falham ao mesmo tempo. Nesse momento a vida se mostra contraditória... há tanta beleza misturada com tanta dor. Para que viver?

Então, o cristão é chamado para pregar o Evangelho a tempo e fora de tempo. Ele é chamado para compartilhar a sua fé com todos. Quem responder positivamente era um eleito e agora é um salvo! Quem não responder é um não-eleito ou então ainda não chegou o seu tempo. De qualquer forma quando uma pessoa se converte ela passa a desfrutar já dos poderes do mundo vindouro enquanto aguarda a plenitude da vida eterna na ressurreição e nos Novos Céus e Nova Terra.

Cada pessoa que se converte pela pregação das Escrituras é mais um perdido que foi encontrado. É mais uma pessoa alienada que encontrou sua vocação celestial. Por isso, há celebração entre os anjos quando um perdido se encontra em Jesus Cristo. A alegria de participar desse parto espiritual não tem preço!

For if there is really one spiritual body (not an immortal soul, but a spiritual body) which has emerged from a flesh then indeed the power of death is broken. O. Cullman

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