"Os filósofos da Academia são dogmáticos, propondo certas coisas sem incertezas e rejeitando outras sem hesitação. Já os seguidores de Pirro fazem profissão de dúvida e são livres de qualquer dogma: nenhum deles, absolutamente, afirmou que todas as coisas ou algumas delas são incompreensíveis e ou são compreensíveis, mas sim que elas ora são compreensíveis e ora incompreensíveis ou então que são compreensíveis para um e não são de forma alguma compreensíveis para outro. Tampouco disseram que todas elas juntas ou algumas delas são captáveis, mas sim que elas são captáveis não mais do que sejam captáveis, que ora são captáveis e ora não são captáveis ou então que para um são captáveis e para outro não são captáveis. E, na verdade, não há verdadeiro nem falso, provável nem improvável, ser nem não-ser; o que há é que a mesma coisa, por assim dizer, não é mais verdadeira do que falsa, mais provável que improvável, mas ser que não-ser, ou então ora isto e ora aquilo ou ainda para um feita de tal modo e para outro não feita de tal modo. Com efeito, em geral, os pirronianos não definem nada - e não definem nem mesmo isso, ou seja, que nada se pode definir -, mas dizem que nós falamos sem ter com que expressar o que é objeto do pensamento. E sustentam que os filósofos da Academia, especialmente os contemporâneos, se remetem por vezes a opiniões estóicas e, para dizer a verdade, parecem estóicos que polemizam com outros estóicos." [Fonte: História da Filosofia, Giovanni Reale e Dario Antiseri, Editora Paulus, vol. I, pag 314]
Para nós que vivemos uma era de mistura de certezas com incertezas essa discussão antiga é interessante. Basta dizer que vivemos a era dos computadores, lançamentos de foguetes espaciais, satélites, que exigem grande precisão de cálculos, exigem certeza num grau acuradíssimo. Porém, também dizemos que não é possível conhecer com o mesmo grau de certeza a posição e a quantidade de movimento de um elétron. Isso, para ficar só na física.
Mais interessante ainda é conhecer a Tábua das Supremas Categorias da Dúvida de Enesídemo:
- Os vários seres vivos têm diferentes constituições dos sentidos, que comportam sensações contrastantes entre si;
- Porém, também se nos limitarmos só aos homens, notamos entre si tais diversidades no corpo e naquilo que se chama "alma" que são capazes de comportar diversidades radicais também nas sensações, nos pensamentos, nos sentimentos e nos comportamentos práticos;
- Até mesmo no homem individualmente a estrutura de cada sentido é diversa, a ponto de comportar sensações em contraste entre si;
- Ainda no homem tomado singularmente, são muito mutáveis as disposições, os estados de espírito e as situações e, portanto, as respectivas representações;
- Conforme tenham educação diversa ou pertençam a povos diversos, os homens têm opiniões diversas sobre tudo (valores morais, deuses, leis, etc);
- Não existe nenhuma coisa que apareça em sua pureza, porque tudo está misturado com o resto e, consequentemente, nossa representação resulta condicionada por isso;
- As distâncias e posições em que se encontram os objetos condicionam as representações que deles temos;
- Os efeitos que as coisas produzem variam de acordo com sua quantidade;
- Todas as coisas são por nós captadas em relação com outras e nunca por si sós;
- Conforme a sua frequência ou a raridade com que aparecem, os fenômenos mudam o nosso juízo.
Por esses motivos, portanto, impôe-se a "suspensão do juízo" (epoché)." [Ib., pag 315]
Depois Enesídemo criou uma outra tábua mostrando as dificuldades que impedem a construção de uma ciência. Pois é, acabou se vendo às voltas com a tarefa de descobrir as causas pelas quais não é possível descobrir as causas. Complicado, não é mesmo?