Monday, December 7, 2009

Pascal e a Natureza Humana - Parte VI

TÉDIO E DIVERTIMENTO
Divertimento - Sobrecarregamos os homens, desde a infância, com o cuidado de sua honra, de sua riqueza, de seus amigos, e ainda com o cuidado da riqueza e da honra desses amigos. Cansamos os homens com negócios, com o estudo de línguas e exercícios, e fazemos com que sintam não poder ser felizes sem que a sua saúde, honra e fortuna, e as de seus amigos, estejam em ordem, e que basta faltar uma dessas coisas para que se tornem infelizes. E lhes impomos encargos e negócios que os atormentam desde que o dia amanhece. Aí está, direis, uma estranha maneira de torná-los felizes! Que haveria de melhor para torná-los infelizes? Como! Que haveria de melhor? Bastaria tirar-lhes todas essas ocupações; então se veriam a si mesmos, pensariam no que são, de onde vêm e para onde vão. Nunca será demais, assim, ocupá-los, nem jamais os distrairemos muito. E é por isso que, depois de sobrecarregá-los de negócios, caso ainda lhes sobre tempo para o descanso, nós os aconselhamos a empregá-los em divertimentos e no jogo, e a permanecer, sempre, totalmente ocupados.
Como é vazio e cheio de baixeza o coração do homem! [Pensamentos, p. 143]
 Na realidade, ninguém consegue verdadeiramente viver plenamente consciente da falta de sentido da vida quando se está convencido que Deus não existe. Se Deus não existe, então como, pelas barbas do profeta, nós chegamos aqui? Se Deus não existe então, com todos os prazeres do mundo, o que estamos fazendo aqui? Se Deus não existe, então para onde vamos quando morrermos aqui? Acredito que tudo na civilização humana é um esforço para esquecer que estamos aqui e que sabemos disso! Se eu não tenho um propósito final então posso ter um propósito imediato, depois outro, depois outro, até não ter mais propósito algum. Distração faz parte do esforço para me esquecer do propósito final inexistente. Quem, em sã consciência, suportaria estar consciente 24 horas por dia que a vida não tem um propósito final? A grande questão então é saber se dentre as religiões praticadas pelo homem se verdadeiramente existe uma que escapa a esta motivação fundamental: ocupar nossa consciência para esquecermos o fato principal de que não há um Deus lá fora nos esperando.
Divertimento - É mais fácil suportar a morte quando não se pensa nela do que pensar na morte sem perigo. [Pensamentos, p. 166]
Divertimento - As misérias da vida humana criaram tudo isso: como eles viram isso, escolheram o divertimento. [Pensamentos, p. 167]
Divertimento - Por ser incapazes de curar a morte, a miséria, a ignorância, os homens lembraram-se, para ser felizes, de não pensar nisso tudo. [Pensamentos, p. 168]
Miséria - A única coisa que nos consola das nossas misérias é o divertimento, e, no entanto, essa é a maior das nossas misérias. É isso que nos impede, principalmente, de pensar em nós, e que insensivelmente nos perde. Sem isso, estaríamos desgostosos, e esse desgosto nos levaria a buscar um modo mais sólido de sair dele. Mas o divertimento nos contenta e nos conduz insensivelmente à morte. [Pensamentos, p. 171]
Tudo que desgosta o homem parte do princípio de que ele nada pode fazer para mudar o seu estado de falta de sentido na vida. Daí ele não só decide não mais pensar nisso como se afasta de pessoas que se obrigam a pensar sobre isso. Mas de fato não existem divertimentos sadios e verdadeiros? Todo divertimento que procura nos fazer parar de pensar na morte e na aniquilação do ser não são sadios nem verdadeiros. O verdadeiro divertimento seria aquele que nasceria de uma visão realista de um mundo futuro promissor com as maravilhas do mundo presente e sem as suas mazelas.  Todo divertimento real deveria ser uma celebração de uma existência futura prazerosa, um emergir do outro lado da morte para uma vida sem fim, plena de significado. Os momentos de prazer e alegria nessa vida seriam antecipações da eterna felicidade que se seguiria à nossa morte num mundo restaurado, onde a morte não mais teria o seu lugar. Os momentos de dor seriam um lembrete que esse mundo não é como deveria ser e que a dor seria uma antecipação das dores de parto da grande transformação cósmica quando então nasceria a grande era infindável do prazer e do significado pleno.

Mas como podemos estar certos de que há um mundo assim nos esperando?

Thursday, December 3, 2009

Pascal e a Natureza Humana - Parte V

TÉDIO E DIVERTIMENTO

Tédio - Nada é mais insuportável ao homem do que um repouso total, sem paixões, sem negócios, sem distrações, sem atividade. Sente então seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio. No mesmo instante virá do fundo de sua alma o tédio, a escuridão, a melancolia, a pena, o despeito, o desespero. [Pensamentos, p. 131]
Assim se escoa a vida. Procuramos o repouso combatendo alguns obstáculos; e, quando estes são superados, o repouso torna-se insuportável. Porque ou refletimos acerca das misérias presentes ou daquelas que nos põem em risco. E, mesmo que nos sentíssemos bem guardados por todos os lados, o tédio, por sua autoridade privada, continuaria a sair do fundo do coração, onde tem raízes naturais, e a encher nosso espírito com seu veneno. [Pensamentos, p. 139]
Divertimento - Seja qual for a condição que imaginemos, pela reunião de todos os bens que nos podem pertencer, concluímos que a realeza é o mais belo posto do mundo. Imaginemos, entretanto, um rei acompanhado de todas as satisfações que dela decorrem, mas sem divertimentos; que considere e medite sobre o que é, e essa felicidade lânguida não mais irá se sustentar. Acabará forçosamente notando as coisas que lhe trazem ameaças, as revoltas que podem estourar, e, por fim, a morte e as doenças inevitáveis. De sorte que, se ficar sem aquilo que se chama divertimento, ei-lo infeliz, [mais] infeliz que o mais ínfimo de seus súditos, que goza e se diverte. [Pensamentos, p. 139]
 Não seria absurdo afirmar que todas as realizações da humanidade partem da fuga do tédio e da busca do divertimento. Qualquer ser humano que pensa não suporta ficar sozinho consigo mesmo. Ele precisa de divertimento para afastar o tédio. Especialmente nos dias em que vivemos há uma epidemia de tédio e divertimento. Veja bem, quanto mais tédio, mais busca frenética pelo divertimento que afasta o tédio. O tédio, sob um determinado aspecto é benigno: nos faz pensar sobre o que somos, quem somos. Mas como somos miseráveis, não suportamos ficar cara-a-cara conosco mesmos. Daí  quem nos poderá salvar? Somente o divertimento. Melancolia é a palavra antiga para o que conhecemos hoje como depressão. Síndrome do pânico é o medo da vida. A falta de sentido, o vazio, trás o medo de viver. Distúrbio do pânico é aquilo que acomete a pessoa que descobre que já está morta, mesmo viva. Quando falamos em divertimento, não estamos falando em passar a vida num parque de diversões. Isso também, mas principalmente estar dedicado a alguma coisa apaixonante. Ter uma paixão dominante que não deixa tempo para pensar quem somos, onde estamos e para onde vamos. A humanidade se especializou em criar alternativas para os homens se esquecerem de si mesmos. O desenvolvimento da humanidade passa pela paixão dos homens.
Divertimentos - Nas ocasiões em que tratei de considerar as diferentes agitações humanas, e os riscos e os castigos a que se expõem os homens, na corte e na guerra, provocando tantas lutas, tantas paixões, tantas realizações ousadas, e muitas vezes funestas, descobri que toda a felicidade dos homens provém de uma coisa só, que é a de ser incapazes de permanecer quietos em um quarto. [Pensamentos, p. 139]
Encontre um homem que está no final de sua vida. Ele já entrou na melhor idade, construiu uma reputação, casou-se, teve filhos, formou seus filhos, que saíram de casa, casaram-se. Agora ele está aposentado, muito velho para começar outra vida, muito novo para morrer [do ponto de vista dele, é claro]. Enquanto ele se dedicava a construir tudo isso, não pensava em si, não tinha tempo para isso. E se arrumasse tempo para isso logo se afastava horrorizado, buscando algo que o livrasse de tais pensamentos. Dinheiro, sexo e poder eram os lenitivos para sua dor interior de pensar em si mesmo. Mas agora, tudo isso se foi. Não precisa mais procriar. Não tem mais aquela disposição para o sexo, aliás tem uma reputação a zelar. Estou falando dos plebeus, pois os reis e os nobres têm seus privilégios e podem seguir nos seus divertimentos. Pois bem, um homem assim está pronto para morrer. De fato, ele definha e morre.
No entanto, ao refletir mais de perto sobre o assunto [do tédio], e, depois de ter encontrado a causa de todas as nossas infelicidades, pretendi descobrir-lhes o motivo; julguei que existe uma muito efetiva, que consiste na infelicidade natural de nossa condição fraca e mortal, e tão miserável que nada nos pode oferecer consulo quando sobre ela refletimos de perto. [Pensamentos, p. 139]
 Não é a taça do campeonato que trás felicidade ao homem, não é a anta que ele caça, mas é a disputa, é a caça, é a subida ao pico, mais do que chegar ao pico propriamente dito, na realidade é a concentração sobre a disputa, a caça e a escalada que distrai a mente do homem e o livra de pensar sobre si. Como diz Pascal:
Não é essa vida indolente e tranquila que nos proporciona tempo para refletir sobre a nossa infeliz condição, que buscamos; como não são os perigos da guerra, nem os aborrecimentos dos empregos; é o ruído, que nos afasta da reflexão acerca da nossa condição e nos diverte.
Essa lebre não nos livra da visão da morte e das misérias, mas a caça - nos desvia dela - dela nos livra.
E, assim, quando os alertamos de que aquilo que procuram com tanta energia não é capaz de os satisfazer, se respondessem, como deveriam fazer caso raciocinassem bem, que buscam nisso somente uma ocupação violenta, impetuosa, que lhes impeça de pensar em si mesmos, e que é por isso que se propõem um objeto fascinante que os encante e os atraia com entusiasmo, deixariam sem argumento os adversários. Mas não respondem dessa maneira, porque não conhecem a si mesmos. Não sabem que é a caça e não a presa que procuram.  [Pensamentos, p. 139]
Talvez isso explique a busca de adrenalina pelos jovens hoje: bungee jump, racha, sexo, drogas, rave, balada, tráfico... E a busca de adrenalina dos jovens de ontem, tais como Alexandre, Augusto: jogos, guerras e conquistas territoriais. E explica também porque os reis e os governantes têm sempre um grande número de pessoas ao seu redor que não os deixam um só instante sem divertimento. Um rei que pensa sobre si mesmo logo ficará infeliz. Um rei infeliz é preocupante. Nem mesmo a contemplação de sua própria glória pode impedir um rei de ficar infeliz, como nos diz Pascal:
Faça-se a experiência: deixe-se um rei sozinho refletir com serenidade em si, sem nenhuma satisfação dos sentidos, sem nenhum cuidado no espírito, sem companhia, e ver-se-á que um rei sem divertimento é um homem cheio de miséria. Por isso, tal coisa é cautelosamente evitada, e jamais falta, junto dos reis, grande número de indivíduos zelando para que os divertimentos sucedam aos negócios, observando-os durante seu descanso para lhes proporcionar prazeres e jogos, de maneira que não haja um vazio; são cercados de pessoas que cuidam maravilhosamente de impedir que o rei fique só e em situação de pensar em si, pois sabem que ele será miserável, apesar de rei, se tal acontecer. [Pensamentos, p. 142]
Talvez esteja aí a explicação do porque alguns de nós somos tão cheio de propósitos, projetos, atividades, relacionamentos, etc. A reflexão, a meditação, a solitude não é artigo procurado hoje em dia nesse mundo de correrias...

Wednesday, December 2, 2009

Pascal e a Natureza Humana - Parte IV

Como a natureza nos faz infelizes em todos os estados, nossos desejos inventam um estado feliz, porque adicionam ao estado em que nos encontramos os prazeres do estado em que não estamos; porém, se alcançássemos tais prazeres, também não seríamos felizes, porque teríamos outros desejos, em conformidade com o nosso novo estado. [Pensamentos, p. 109]
Pascal tem razão em dizer que somos, por natureza, insaciáveis e instáveis com relação aos nossos desejos? Minha esposa, que não lê Pascal, já sabia disso. Ela vive me dizendo exatamente isso. "Você nunca está satisfeito com as coisas que você tem ou com o lugar que você alcançou. Sempre quer aquilo que não tem ou aquilo que não alcançou." E ela tem razão. É assim mesmo que sou. Os meus sucessos não me satisfazem mais do que o meu desejo por aquilo que não conquistei, aquilo que ainda não alcancei. Restaria saber se ela está satisfeita apenas com aquilo que tem ou que conquistou. Ou se não está consciente dos desejos não satisfeitos que habitam o seu interior. No primeiro caso, ela me jogaria para a categoria dos imaturos, inconstantes e sem gratidão. No segundo, ela apenas não teria dado conta de que somos todos assim. Uns conscientes disso outros, não. Na realidade a coisa comigo é mais patológica do que eu gostaria de admitir. Algumas vezes constatei em mim o desejo de poder viver mil vidas. Parece que apenas uma vida não esgota em mim a sede de experimentar a vida de outros pontos-de-vista. E não estou falando aqui de reencarnação. Na realidade acho pouco experimentar a vida de um só ângulo. Para encontrar o sentido da existência é preciso integrar as inúmeras experiências de vida. Talvez venha daí o nosso prazer em ouvir narrativas, em assistir filmes e em ler romances e biografias. Seria uma forma de apreendermos um pouco do sentido da vida vivída em uma situação diferente da nossa. Talvez no futuro, com o desenvolvimento da inteligência artificial acompanhada da realidade artificial de imersão total possamos satisfazer essa sede de viver novas experiências. Ou, quem sabe tudo isso não passe somente de distração do "eu" que não quer realmente encarar a realidade da vida?

Por falar em inconstância da alma, inconstância do ser, Pascal tenta sintetizar a sua causa:
O sentimento da falsidade dos prazeres presentes e a ignorância da vaidade dos prazeres ausentes dão causa à inconstância. [Pensamentos, p. 110]
 Inconstância - Julgamos tocar órgãos ordinários quando tocamos o homem: são órgãos, na verdade, mas estranhos, mutantes, variáveis [cujos tubos não se seguem por graus conjuntos]. Os que sabem apenas tocar os ordinários não produziriam acordes nestes. É preciso saber onde se acham as teclas. [Pensamentos, p. 111]
Inconstância - As coisas têm diferentes qualidades e a alma, diversas tendências; porque nada daquilo que se oferta à alma é simples, e a alma nunca se oferta com simplicidade a assunto  algum. Eis por que, às vezes, choramos e rimos com uma só coisa. [Pensamentos, pl 112]
 Dessa inconstância que é o homem, desse choque de contrários pelo qual passa o homem, aparecem o tédio e a inquietação, aparece a necessidade do divertimento para espantar o tédio. Nos surpreenderemos em refletir sobre tédio e divertimento do ponto de vista de Pascal.

Pascal e a Natureza Humana - Parte III

Imaginação - É essa parte enganadora no homem essa senhora de engano e falsidade, tanto mais velhaca quanto não o é sempre...
Não falo dos loucos, e sim dos mais sábios, e é entre eles que a imaginação tem o imenso dom de persuadir os homens. Por mais que a razão grite, não pode valorizar as coisas.
Essa soberba potência inimiga da razão, que se deleita em mantê-la sob controle e domínio a fim de mostrar quanto pode em todas as coisas, estabeleceu no homem uma segunda natureza. Tem seus felizes, seus infelizes, seus sãos, seus doentes, seus ricos, seus pobres; faz crer, duvidar, negar a razão; suspende os sentidos, faz com que se os perceba; tem seus loucos e sábios: nada nos irrita mais do que contatar que enche seus hóspedes de uma satisfação bem mais plena e completa do que a razão. Os hábeis por imaginação comprazem-se muito mais em si mesmos do que os prudentes o conseguem de modo razoável. Observam os demais com autoridade; disputam com ousadia e confiança; os outros, com medo e desconfiança: essa alegria visível lhes proporciona, muitas vezes, vantagem, na opinião dos ouvintes, tal é a maneira como os sábios imaginários gozam mercê junto aos juízes de idêntica natureza! Não pode tornar sábios os loucos; mas os torna felizes, ao contrário da razão, que só pode tornar seus amigos miseráveis; uma ao cobrí-los de glória, outra, de vergonha.[Pensamentos, p. 82]
Pascal pensa que a razão tem uma inimiga poderosa que governa o mundo já que, infelizmente, as pessoas se entregam a ela com mais facilidade do que se entregam à razão: a imaginação. De que imaginação Pascal está falando? Não se trata da imaginação criativa, serva da razão. Trata-se antes de uma forma de cegueira que impede até mesmo os sentidos de se manifestarem. A pessoa imaginativa, no sentido em que Pascal está se referindo, cria a sua própria realidade, contrariando a razão e os sentimentos. Ela cria e vive dentro dessa realidade própria, esse mundo do faz-de-conta que zomba dos fatos. Podemos colocar aqui aqueles ditadores malucos que, tomando o poder, impõem suas ideologias aos seus infelizes conterrâneos. Podemos colocar aqui aqueles profetas estapafúrdios com suas utopias extraordinárias que carregam milhares de outros imaginativos que já desistiram de agir pela razão e pelos sentidos. Podemos colocar aqui aqueles sistemas religiosos que obrigam as pessoas a viverem de modo antinatural porque seu guru ou profeta mor viu isso nos seus sonhos idiotas. Não são muitos os que escapam do domínio dessa senhora enganadora e falsa.
Segundo Pascal, a imaginação distorce a visão das coisas. Ele chama a imaginação de fantasia. Ela funciona como uma lente que me faz ver o mundo sob luz diferente da realidade. Faz um homem odiar a outro porque se comporta de maneira contrária àquilo que nossa fantasia estabeleceu como aceitável. As velhas e as novas crendices têm o poder de nos enganar. Há também doenças que perturbam nosso julgamento e sentidos.
Infelizmente, se os sentidos e a razão, que são os pilares da verdade, não forem utilizados de maneira cuidadosa poderão levar também ao engano, constituindo-se em forças enganadoras. A origem mais forte do falseamento da realidade é a guerra entre os sentidos e a razão:
O homem não é senão um alguém cheio de erro, natural e indelével sem a graça. Nada lhe revela a verdade. Tudo o mantém iludido. Os dois princípios das verdades, a razão e os sentidos, não apenas necessitam de sinceridade como iludem-se um ao outro. Os sentidos, com suas aparências falsas, enganam a razão; e esse mesmo logro que ofertam à razão recebem-no dela, por seu turno. Ela revida. As paixões da alma perturbam os sentidos e provocam-lhe falsas impressões. Mentem e se enganam sem descanso. [Pensamentos, p. 83]
É interessante que Pascal diz que o papel da vontade na crença é fundamental. O ângulo pelo qual vemos a vida depende do exercício da vontade. As crianças crescem e desenvolvem uma visão de mundo que está ligada com os hábitos que se praticam na família. Isso significa que podemos corrigir nossa imaginação criando hábitos que nos farão ver a realidade de forma diferente:
Que são nossos princípios naturais senão princípios de hábitos? E nas crianças, os que receberam com os hábitos dos pais, como a caça entre os animais?
Hábitos diferentes dão-nos princípios naturais diferentes, é o que nos mostra a experiência; e, caso existam princípios que o hábito não pode eliminar, existem igualmente os do costume contra a natureza, inextinguíveis por esta, ou por um segundo costume. Tudo depende da disposição.  [Pensamentos, p. 92]
Os pais receiam que o amor natural de seus filhos desapareça. Que espécie de natureza será essa então, passível de extinção? O hábito é uma segunda natureza que destrói a primeira. Mas que é a natureza? Por que não é o hábito natural? Temo que tal natureza não seja ela própria nada além de um primeiro hábito, assim como o hábito é uma segunda natureza. [Pensamentos, p. 93]
Há diferença essencial e universal entre as ações da vontade e todas as outras.
A vontade é um dos órgãos principais da crença, não porque a forme, mas porque as coisas são verdadeiras ou falsas de acordo com o ângulo pelo qual as vemos. A vontade, que se satisfaz mais em um do que em outro,  afasta o espírito da consideração das qualidades que não deseja enxergar; de sorte que o espírito, marchando de comum acordo com a vontade, detém-se a olhar do ângulo que esta aprecia. Julga-se desse modo pelo que se vê. [Pensamentos, p. 99]
Bem daí, me parece que Pascal está dizendo que ainda que eu tenha sido educado numa forma imaginativa de ver o mundo que se oponha à realidade das coisas, pelo força da vontade, essa primeira natureza adquirida ao longo de uma vida pode ser mudada se aplicarmos a vontade para criarmos hábitos novos. À medida que hábitos novos vão sendo desenvolvidos pela vontade, uma nova visão da vida vai se estabelecendo em nosso ser.

Saturday, November 28, 2009

Pascal e a Natureza Humana - Parte II

Já faz mais de uma década eu conversei com um jovem universitário que estava convalescendo de uma tentativa de suicídio num hospital. Quando eu lhe perguntei por que havia feito aquilo ele olhou-me nos olhos e disse: "Tédio!". Um terrível e desesperador tédio de estar vivo. Quem nunca sentiu tédio? Quando um dos meus filhos era pequeno, de vez em quando ele vinha para mim e perguntava: "Pai, o que eu faço agora?" Eu lhe respondia ora, brinca com isso ou aquilo. Ele me respondia: "Eu já brinquei." Eu ficava um pouco desesperado internamente e dizia para ele: "Procure algo que você ainda não fez e faça!" Esperando que ele encontrasse algo que distraísse sua atenção e o libertasse do tédio. Tédio e divertimento. Buscamos divertimento para nos livrar do tédio. Mas, o que é o tédio e o que é o divertimento?

Além do meu diário, manuscrito, costumo escrever os pensamentos que me passam pela mente nas minhas agendas de compromissos. Tenho muitas dessas agendas guardadas. Eis a seguir algumas entradas delas:

O mundo jaz nos desejos. Se não houvesse prazer em reproduzir a humanidade já teria se acabado. Se não houvesse prazer em se alimentar, as pessoas morreriam de inanição. Se não houvesse dor e sofrimento na morte, o índice de suicídio seria catastrófico. [02/11/2009]
 A ÚNICA VERDADEIRA QUESTÃO: A vida tem um sentido? Se dissermos sim, então esse sentido não pode fazer parte da ordem das coisas que acostumamos chamar de realidade. Algo externo a essa realidade poderia ser chamado de Deus. Se não existir algo externo a esse mundo, então esse mundo não pode ter sentido. Se o mundo realmente não tem sentido, então para continuarmos a viver, precisamos arranjar alguma coisa que nos distraia dessa percepção. Qualquer coisa que possa constituir-se na nossa razão de viver. Pode ser a arte, a religião, a política, o prazer, a droga, o poder, o sexo... qualquer coisa que tire a nossa atenção de nós mesmos e da nossa falta de sentido, do nosso vazio interior...
Se não há nada além da realidade onde vivemos, então ou nos enganamos e continuamos a farsa ou, então, nos matamos e terminamos o tédio. Os sofrimentos dessa vida, a dor, também são distrações para o tédio. Muitas pessoas vivem pela dor.
"Vida boa, vou ficar à toa, sem me aborrecer" diz a canção do filme infantil "O Pequeno Urso".
Fazer algo só por fazer. Buscar a excelência em alguma coisa só pela própria coisa em si. Não questionar nada, aceitar o absurdo da vida e fazer o melhor. [20/11/2009]
Sou como um viciado em crack cujo fornecedor já não atende. Cresce dentro de mim a fissura pelo "meu crack". Desejo ardentemente aquela fumaça que me faz esquecer por apenas alguns minutos quem eu sou, porque estou aqui, para onde vou... Desejo luxuriosamente aquela pedra, fonte do meu nirvana existencial. Aquela pedra que me dissolve num nada de prazer sensorial... Quem me livrará desse mundo sem sentido e sem propósito? Quisera que a morte me lançasse no mar do esquecimento, na dimensão do não-ser... [9/10/2009]
A maioria quase absoluta das pessoas segue inconsciente do vazio, do tédio que habita o seu interior. Algumas são industriosas, agitadas, correndo daqui para ali, fazendo coisas. Elas acham que o que as move são seus ideais, são seus desejos de fazer alguma coisa para a humanidade. Elas se enganam com bons pensamentos sobre suas realizações. Elas não sabem ou não querem saber que aquilo que as puxa para essas "grandes obras" vem do seu vazio interior, do imenso tédio que tenazmente as assedia. Elas amaldiçoariam você se as convencesse do contrário. Tirar o véu da ilusão dos olhos delas traria uma dor insuportável. Elas costumam eliminar aqueles que abrem seus olhos.

Achei interessante que Pascal desvendasse esse cenário interior do homem. Ele começa no seu livro póstumo "Pensamentos", a descrever o que ele chama de "Miséria do homem sem Deus". Naturalmente Pascal é cristão e entende que tem a chave que livra o homem da sua miséria interior, ou seja, Deus. Mas vamos citar e comentar os argumentos de Pascal sobre a miséria do homem.

Ele inicia criticando Montaigne que "pensava apenas em morrer de maneira covarde, doce, em todo o seu livro". Mas em seguida, ele admite que não é diferente de Montaigne:
"Não é em Montaigne, mas em mim mesmo que encontro tudo o que nele vejo." [Pensamentos, p. 64]
Segue examinando a desproporção do homem diante do universo. Ele afirma que homem percebe apenas a aparência das coisas e entra num eterno desespero por não poder conhecer nem o seu princípio nem o seu fim. Ele havia perguntado:
Que é o homem dentro da natureza, afinal? Nada em relação ao infinito; tudo em relação ao nada; um ponto intermediário entre tudo e nada. Infinitamente incapaz de compreender os extremos; tanto o fim das coisas como seu princípio mantêm-se ocultos num segredo impenetrável, e é-lhe igualmente impossível ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve. [Pensamentos, p. 72]

 Ele procura chamar atenção dos seus leitores para o fato de que o homem tem que ser humilde e reconhecer sua finitude, pois ele é "algo e não tudo". [Pensamentos, p. 72] Ele quer demonstrar que o homem está condenado a viver num meio-termo:
Em suma, as coisas extremas são para nós como se não existissem, não estamos dentro de suas proporções: escapam-nos ou lhes escapamos... Nadamos num amplo meio-termo, sempre incertos e flutuantes, empurrados de um lado para outro. [Pensamentos, p. 72]
Com isso ele quer tranquilizar-nos. Ele quer que aceitemos a nossa condição nesse mundo: sabemos um pouco, mas ignoramos muito. Conhecemos um pouco, mas não estamos conscientes da vastidão e da pequenez do Universo.

Talvez um exemplo nos ajude a entender. Voava eu de Santa Catarina para o Paraná e, ao sobrevoar a região de Maringá de repente tomei consciência mais uma vez da complexidade daquela situação em que me encontrava. Primeiro, eu estava voando. Sim, estava num lugar que não foi dado ao homem para estar. Depois, abaixo de mim se descortinava uma imagem de uma imensa planura que se estendia para todas as direções. Eu estava acima das nuvens, mas não podia ver o final da parte "plana" da terra, onde deveriam estar plantados os meus pés. Na realidade, quando eu estava plantado sobre os meus pés na terra, eu perdia toda a consciência do que era estar ali, acima da terra. Ou estava submergido na minha condição de formiga ou estava consciente da minha condição de pássaro. Entendi que eu tinha dificuldade de viver como formiga, consciente da visão do pássaro. Lá de cima eu via duas estradas que se bifurcavam e se afastavam uma da outra. Sobre essas duas estradas havia dois pequeninos retângulos que estavam praticamente imóveis à minha vista. Entendi que eram dois carros que percorriam velozmente aqueles caminhos, alheios um do outro, por causa da distância que se encontravam um do outro. Lembrei-me que quando eu estava no meu carro percorrendo uma estrada não tinha consciência daquela visão privilegiada que agora gozava. Ou estava no carro numa visão limitada, ou estava no espaço numa visão privilegiada. Assim, me vi extremamente limitado na conscientização da minha situação.

Quer viver tranquilo? Pascal aconselha:
Não procuremos, assim, segurança e firmeza. Nossa razão sempre é iludida pela inconstância das aparências e nada pode fixar o finito entre os dois infinitos que o cercam e dele se afastam. [Pensamentos, p. 72]
O que Pascal não conseguia ver naquela época era que o homem, usando sua pequena inteligência, trilharia um caminho de superação das suas limitações. Ele não viu também que ele foi um dos responsáveis por essa tendência de superação. Ele inventou a máquina de calcular, precursora  dos nossos modernos computadores. Ora, o que são computadores, aviões, telescópios, microscópios, robots, etc? Eles são próteses para extensão da nossa capacidade de atuar, compreender e perceber o universo. Um exemplo talvez nos deixe bem esclarecidos dessa caminhada de superação das nossas limitações. Até pouco tempo atrás nenhum ser humano podia ver com clareza no escuro. Ele era limitado pelo espectro visível que seus olhos poderiam perceber. No entanto, com os dispositivos infravermelhos e com os dispositivos de amplificação da luz o homem vê no escuro. Seu espectro foi estendido por uma prótese, os equipamentos de visão noturna [veja, por exemplo, http://eletronicos.hsw.uol.com.br/visao-noturna.htm].

É muito interessante que Pascal tenha uma visão da possibilidade do conhecimento substancial parecido com alguns dos nossos gurus contemporâneos. Como tudo está ligado com tudo, todas as coisas são causadoras e causadas simultâneamente, então para ele é impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, bem como entender o todo sem entender particularmente as partes. E, para complicar a situação do homem, Pascal entendia que a dualidade corpo-mente trazia um complicador adicional na capacidade de apreensão e compreensão do homem:
E o que completa nossa capacidade de conhecer as coisas é o fato de ser elas simples em si, enquanto nós somos formados por duas naturezas antagônicas e de gêneros diversos, alma e corpo. Pois é impossível que a parte raciocinante de nós não seja exclusivamente espiritual; e, caso se pretenda que somos apenas corporais, afastar-se-á mais ainda de nós o conhecimento das coisas, pois nada é mais inconcebível do que diaer que a matéria conhece a si mesma: não podemos conceber de que maneira se conheceria. Assim, se [somos] simplesmente materiais, nada podemos conhecer; e se somos compostos de espírito e matéri, não podemos conhecer perfeitamente as coisas simples, espirituais ou corporais. [Pensamentos, p. 72]
 Pascal se esqueceu que podemos dividir para conquistar. As coisas complexas podem ser subdivididas para serem compreendidas. Por exemplo, cálculos aritméticos foram realizados pela sua máquina. Isso é uma pequena parte do computador, que é uma máquina mais complexa, agregada de inúmeras partes mais simples. Na realidade, no computador digital tudo se reduz a 0 e 1. Em princípio, a Inteligência Artificial não teria futuro na abordagem de Pascal. Mas o seu invento o contraditou. Hoje os cientistas falam em trazer emoções para os computadores. Isso vai muito além do que Pascal poderia admitir, já que ele pensa que o raciocínio não pode ser realizado no nível material, mas apenas no nível espiritual. Mas isso é uma outra conversa.

Friday, November 27, 2009

Pascal e a Natureza Humana - Parte 1

Somos apenas mentira, duplicidade, contrariedade, ocultando-nos e disfarçando-nos de nós mesmos. [Pascal, Pensamentos, Nova Cultural, p. 377]
 É óbvio que para entender os escritos de Pascal, seria necessário conhecer também um pouco da sua vida. Mas, não querendo nos alongar apenas diremos o mínimo necessário para situá-lo no tempo e no espaço. Ele nasceu na França em 19/06/1623. Filho de Étienne Pascal, matemático, foi educado por seu pai, nunca tendo sido enviado a colégios. Desejando que o filho estudasse línguas, manteve-o afastado da matemática o quanto pôde, até descobrir estarrecido que o filho tinha chegado sozinho até a 32a. proposição geométrica do livro I de Euclides. Desde criança "queria saber a razão de todas as coisas e não se satisfazia diante de explicações incompletas ou superficiais". Aos 16 anos escreveu um Tratado Sobre as Cônicas, aos 19 anos inventou a máquina aritmética, considerada "uma verdadeira revolução, pois transformava uma máquina em ciência, ciência que reside inteiramente no espírito". Uniu-se aos jansenitas de Port-Royal, interessando-se pelas discussões sobre a Bíblia, buscando conciliar as teses dos partidários da Reforma sobre a graça com a doutrina católica.

Sua espiritualidade foi profundamente marcada pela cura milagrosa da sobrinha, fato esse conhecido como "milagre do Santo Espinho", que reforçou-lhe a tendência mística e a certeza de que "há alguma coisa acima daquilo que chamamos natureza". Vive tanto uma fase de militância religiosa como de recolhimento e reflexão. Após a condenação do jansenismo, Pascal submete-se ao poder papal e, na terceira fase de sua vida, volta-se para a cência. Ele vive no século XVII, que busca um método que torne legítimo e seguro o conhecimento. Período influenciado pelas idéias de Bacon, Descartes, Espinosa, os jansenistas de Port-Royal e Leibniz.

Uma das maiores obras de Pascal foi Pensamentos, onde fazendo coro aos jansenistas trágicos acredita que "a incerteza recobre tudo e que a vida cristã é um misto de esperança e tremor. Deus se esconde irremediavelmente e não há Graça que o torne manifesto ao homem. Como Deus abandona o mundo e a Igreja, o homem só pode ser um miserável pecador. No terceiro período de sua vida, Pascal vive assim o paradoxo de ter de se submeter ao poder monárquico e eclesiástico, e de dedicar-se aos trabalhos científicos, ao mesmo tempo que admite a incerteza radical de tudo. Assume então o paradoxo jansenista do "pecador justo", do homem que vive simultaneamente na recusa e aceitação do mundo".

"Para Pascal o ponto de partida para se subir à fé é o autoconhecimento... sua grandeza vem de sua origem divina, sua esperança de salvação é sustentada pela redenção de Jesus Cristo, sem a qual o conhecimento de Deus seria inútil para o homem". [Citações originadas de Pascal, Pensamentos, Editora Nova Cultura, 1999].

Pascal viveu apenas 39 anos e morreu em Paris, aos 29 de agosto de 1662. Padeceu intensos sofrimentos, suportando-os com grande resignação. Suas últimas palavras foram: "Que Deus jamais me abandone!". 

Wednesday, September 9, 2009

Morre o indivíduo e prossegue a humanidade. Até quando?

Segundo The Death Report a população do mundo, no momento em que escrevo [17:42 hs de 09/092009], é de 6.794.087.840 habitantes. Ou seja, quase 7 bilhões de pessoas respiram o mesmo ar que respiramos, pisam o mesmo solo que pisamos, viajam na mesma nave que viajamos: o planeta Terra! Há dois dias atrás, às 20:40 hs a população do mundo era de 6.793.676.132 pessoas. Em menos de dois dias ela cresceu em cerca de 411 mil novas pessoas!!! O ritmo continua acelerado. Onde vamos parar??

Há uma diferença acentuada entre a taxa de natalidade dos países ricos [maioria dos países da Europa, EUA, Japão e Alemanha] e dos países em desenvolvimento [Continente Africano, Médio Oriente, Ásia Meridional e Central e alguns países da América Latina]. Os primeiros apresentam taxas de natalidade reduzidas, isto é, abaixo de 20%, sendo que a Alemanha tem o índice mais baixo, ou seja 8,3%. Os segundos, apresentam taxas elevadas, isto é, acima de 30%, sendo que a taxa mais alta é de Niger, ou seja 48,3%. Veja um estudo em ppt relacionando a distribuição da taxa de natalidade, a distribuição da taxa de mortalidade e distribuição da taxa de crescimento natural, como sendo a diferença entre a primeira e a segunda distribuições de taxas.

É claro que isso tem uma consequência maligna: os países que possuem a maior parte da riqueza, as quais obtiveram às custas de maiores atividades agressoras do meio ambiente, crescem, demograficamente, menos do que os países mais pobres. Isso acarreta uma diferença de potencial econômico enorme numa direção e uma diferença de potencial de demanda de alimentos enorme na direção inversa,aumentando a instabilidade social.

É evidente que as condições de sobrevivência nos países pobres são muito piores do que as condições de sobrevivência nos países ricos. Isso trás em si a tenderia de contrabalançar a diferença de potencial aludida anteriormente. Mesmo assim, The Death Report, que é uma simulação em tempo real, baseada em dados fidedignos, nos mostra que enquanto em Niger, com 13.735.778 habitantes, morre 1 pessoa a cada 2 minutos e nasce 1 pessoa a cada 47,9 segundos, na Alemanha, país de 82.113.087 habitantes, morre 1 pessoa a cada 35,4 segundos e morre 1 pessoa a cada 46,8 segundos. Logo o crescimento demográfico no país africano é muito maior do que aquele do país europeu. Verifique por você mesmo.

Bem, e daí? Daí que existem alguns indicadores inquietantes. Por exemplo, no estudo sobre a distribuição de índices de fecundidade o autor afirma que para que haja renovação de uma população é necessário que cada mulher tenha pelo menos 2,1 filhos. Outro dia, num outro estudo antropológico, foi-me dito que o índice de filhos por casal tem crucial importância na manutenção de uma cultura. Ora, os índices de filhos por casal nos países europeus ricos hoje é menor do que necessário para manter a milenar cultura européia por mais um período prolongado de tempo. Em contrapartida, as famílias de origem muçulmanas que têm chegado à Europa por imigração, apresentam o índice de fecundidade de valor elevado. Isso poderá ocasionar a deglutição da cultura européia pela cultura muçulmana na Europa em poucas décadas. E essa é uma maneira de se substituir a cosmovisão de um povo sem utilizar-se da guerra convencional. O quadro, como se vê, é complexo.

Numa próxima oportunidade, vamos refletir sobre as questões em torno do número de pessoas que morrem no mundo por ano. Quantos são e como se distribuem.

São 19:20 hs, faz 1 hora e 40 minutos que estou escrevendo, neste período: nasceram mais 20.400 crianças e morreram 10.400 pessoas, dando um aumento populacional de 10.000 novos tripulantes da nave mãe.

Até lá.

Wednesday, August 19, 2009

Somos Todos Canalhas Enrustidos

O ser humano se ilude consigo mesmo: vive um autoengano!

Freud viu isso na psicanálise quando pretendeu descobrir, tirar o teto do indivíduo iludido.

Racionalizamos, mentimos sobre tudo e para todos. E mentimos para nós mesmos. Somos atores de nós mesmos. Representamos os papéis que escrevemos na grande arena da vida.

Quem realmente é bom? Jesus disse: "Por que me chamais de bom? Bom só existe um que é meu pai que está nos céus." Com isso ele anatemizou a todos os que vivem sobre a terra: somos todos maus!!! E ele reforçou esse anátema e postulou que mesmos os maus podem produzir coisas relativamente boas. "Se vós que sois maus sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos..." Sim, somos maus, mas sim, ainda podemos dar boas dádivas.

Mas, não importa, em última análise nossa motivação é sempre egoísta, ou eu deveria dizer, sempre egocêntrica!?! Se você for retrocedendo pela cadeia da motivação sempre chegará na sua raiz: "Eu".

Mas, e os respeitáveis? E os veneráveis? E os reverenciáveis? E os "santos homens"? E os fariseus? Bem, todos esses mentem. Mentem para os homens, mentem para Deus e mentem para si mesmos. E mentem tanto e com tal dedicação que já não mais podem crer na sua maldade inerente. Acreditam piamente que realmente são bons, sendo no entanto maus.

Bertrand Russell disse algo mais ou menos assim: "Todo homem respeitável é um canalha! E eu olho ansiosamente todos os dias para minha imagem no espelho procurando os sinais de canalhice."

Agora, ainda que conscientemente o homem [não se iludam, a mulher também!] acredite na sua "bondade", inconscientemente paga pesado tributo ao carregar o fardo da negação da sua maldade onipresente. Ele cria uma imagem exterior da sua falsa bondade interior e segue "enganando e sendo enganado".

E, por isso, julgamos o nosso próximo: porque já acreditamos na mentira da nossa própria respeitabilidade!!! Mas o rabi de Israel nos desafia: "Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra!"

Somos todos canalhas e mentirosos respeitáveis.

Como seria bom poder desvestir-nos por alguns instantes dessa pesadíssima armadura de bondade que carregamos. Como seria um descanso poder dizer: eu sou um canalha fingidor. E não ter ninguém escandalizado que se atrevesse a nos atirar a primeira pedra!

Que bom seria se o mundo fosse como uma imensa reunião da Sociedade dos Canalhas Anônimos. Cada vez que nos reuníssemos nós nos levantaríamos e diríamos a todos: "Eu sou um canalha inveterado. Pela graça da divindade estou há tanto tempo sem cometer uma canalhice. Então nos confessaríamos diante de todos contando como a nossa canalhice torna o mundo ao nosso redor mais sórdido e nos separa do nosso próximo, igual a nós!

Depois, admirados da nossa própria malignidade, nos sentaríamos espantados de que a divindade não tivesse nos destruído ali mesmo. E lá nosso profundo eu tremeríamos diante dela com reverência e humildade agradecidos, enquanto os outros canalhas sóbrios nos envolveriam com seus braços e nos banhariam com suas lágrimas de compaixão!

Monday, August 17, 2009

Vivemos na mesma realidade?

Mais lembranças tenho eu do que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo... Meus sonhos são como a vossa vigília... Minha memória, senhor, é como depósito de lixo. "Funes, o memorioso", Jorge Luís Borges.

Quando criticamos ou desprezamos alguém porque tem uma opinião diferente da nossa dificilmente nos apercebemos que partimos da idéia não comprovada de que eu e essa pessoa vemos o mundo da mesma forma. Mas será isso verdade? Vivemos todos na mesma realidade?

Fiquei sabendo do caso de uma pessoa que tinha um problema visual, não suspeitado por ela, que a impedia de ter uma visão com a qualidade comum de profundidade que a maioria experimenta. Dá para imaginar os problemas que essa pessoa enfrentava para se locomover. Ela não sabia que a realidade de sua visão era diferente da realidade das outras pessoas. Por isso não podia entender porque locomover-se no mundo tridimensional era algo tão mais complicado para ela. Seria incapacidade intelectual, seria inabilidade pessoal? Um dia ela descobriu o problema que a impedia de ver a dimensão de profundidade e o consertou. Sua vida mudou!

Um dia um velho pai ou mãe olha para o filho ou a filha e pergunta: "Mas, quem é você?" Primeiro a pessoa pensa tratar-se de brincadeira. Porém, mantida a dúvida, vem o susto: o que está acontecendo? Posteriormente, após muitos exames e muito sofrimento, descobre-se que o progenitor amado adquiriu DA [Doença de Alzheimer]. Então começa-se a entender que uma parte dos neurônios com suas sinapses foi subtraída da mente dele. Justamente daquela área do cérebro que guardava as memórias relativas a história conjunta dele(a) com seus filhos. A partir de então se sabe que aquela pessoa já não vê a realidade da mesma maneira que nós vemos. A partir de então, será necessário desenvolver um novo tipo de relacionamento.

No cinema, só para citar um caso, temos o filme "Como se fosse a primeira vez", de Pete Segal, no qual a protagonista, depois de um acidente perde a capacidade da memória a curto prazo e seu namorado precisa conquistá-la todos os dias novamente, pois todas as noites sua memória do dia é apagada. Ele até faz um vídeo de todos os acontecimentos da época do acidente da namorada para que ela possa refrescar a memória todos os dias. Pense como seria ser casado com uma mulher assim. Acordar com ela no dia seguinte e ouví-la perguntar assustada: "Quem é você e o que está fazendo na minha cama?"

Além disso, também é preciso saber que a personalidade depende daquilo que ficou gravado nos neurônios e suas sinapses. Estamos falando não só dos eventos em si, mas de tudo aquilo que a mente percebeu e gravou juntamente com ele. Nós pensamos com o corpo e nossas emoções [veja mais detalhes] . No livro "O erro de Descartes", o neurologista e neurocientista português Prof. Dr. António Rosa Damásio, mostra que uma lesão num determinado ponto do cérebro humano, mesmo sem tirar-lhe a capacidade de raciocionar corretamente, pode mudar completamente a personalidade de uma pessoa.

Tudo isso leva-nos a pensar que vivemos em mundos diferentes. Ninguém vê o mundo da mesma maneira. Logo, ninguém reage às mesmas circunstâncias da mesma maneira. Talvez não precisemos adotar o solipsismo[1] radical. Porém, devemos abrir um espaço para compreender que se as diferenças fisiológicas podem nos levar a mundos diferentes, também o fazem nossa história, nossa cultura e o meio ambiente. A maneira como fomos criados, nossa cosmovisão, o conjunto de verdades que cremos regem a nossa maneira de interpretar e agir no mundo.

Voltaremos a essa reflexão futuramente.

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[1] O SOLIPSISMO é a idéia de que a única realidade é o próprio EU, é que tudo o mais não tem existência em si própria, ou não se pode comprovar tal existência. A ilusão do mundo então, incluindo as outras pessoas, seria uma projeção da mente.

Sunday, July 12, 2009

Onde está você???


A foto ao lado eu baixei de um site, talvez da Nasa, não me recordo mais. O mais importante é que a foto é fantástica. Uma visão privilegiada da nossa nave mãe.

Todos os dias você vai trabalhar e volta para sua casa, mas raramente se dá conta da sua pequenez!!

Você vê os prédios nas ruas, enormes carros nas estradas, grandes navios no mar, imensos aviões no ar e pensa: "como o homem é poderoso!".

Você se sente o rei, o centro do Universo.

Peraí!!! Acho melhor ver as coisas sob um ângulo diferente. Que tal orbitando a Terra???

Não representa nada essa distância em relação às escalas inter-galáticas... e quantas galáxias existem. Todavia, dessa distância de nada, cadê o homem??!!! Você consegue vê-lo dessa distância sobre a face da Terra? Que tal um prédio? Ou um transatlântico singrando os mares????

Nada??? Puxa, afinal você não é tão grande assim como pensava.