O ser humano se ilude consigo mesmo: vive um autoengano!
Freud viu isso na psicanálise quando pretendeu descobrir, tirar o teto do indivíduo iludido.
Racionalizamos, mentimos sobre tudo e para todos. E mentimos para nós mesmos. Somos atores de nós mesmos. Representamos os papéis que escrevemos na grande arena da vida.
Quem realmente é bom? Jesus disse: "Por que me chamais de bom? Bom só existe um que é meu pai que está nos céus." Com isso ele anatemizou a todos os que vivem sobre a terra: somos todos maus!!! E ele reforçou esse anátema e postulou que mesmos os maus podem produzir coisas relativamente boas. "Se vós que sois maus sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos..." Sim, somos maus, mas sim, ainda podemos dar boas dádivas.
Mas, não importa, em última análise nossa motivação é sempre egoísta, ou eu deveria dizer, sempre egocêntrica!?! Se você for retrocedendo pela cadeia da motivação sempre chegará na sua raiz: "Eu".
Mas, e os respeitáveis? E os veneráveis? E os reverenciáveis? E os "santos homens"? E os fariseus? Bem, todos esses mentem. Mentem para os homens, mentem para Deus e mentem para si mesmos. E mentem tanto e com tal dedicação que já não mais podem crer na sua maldade inerente. Acreditam piamente que realmente são bons, sendo no entanto maus.
Bertrand Russell disse algo mais ou menos assim: "Todo homem respeitável é um canalha! E eu olho ansiosamente todos os dias para minha imagem no espelho procurando os sinais de canalhice."
Agora, ainda que conscientemente o homem [não se iludam, a mulher também!] acredite na sua "bondade", inconscientemente paga pesado tributo ao carregar o fardo da negação da sua maldade onipresente. Ele cria uma imagem exterior da sua falsa bondade interior e segue "enganando e sendo enganado".
E, por isso, julgamos o nosso próximo: porque já acreditamos na mentira da nossa própria respeitabilidade!!! Mas o rabi de Israel nos desafia: "Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra!"
Somos todos canalhas e mentirosos respeitáveis.
Como seria bom poder desvestir-nos por alguns instantes dessa pesadíssima armadura de bondade que carregamos. Como seria um descanso poder dizer: eu sou um canalha fingidor. E não ter ninguém escandalizado que se atrevesse a nos atirar a primeira pedra!
Que bom seria se o mundo fosse como uma imensa reunião da Sociedade dos Canalhas Anônimos. Cada vez que nos reuníssemos nós nos levantaríamos e diríamos a todos: "Eu sou um canalha inveterado. Pela graça da divindade estou há tanto tempo sem cometer uma canalhice. Então nos confessaríamos diante de todos contando como a nossa canalhice torna o mundo ao nosso redor mais sórdido e nos separa do nosso próximo, igual a nós!
Depois, admirados da nossa própria malignidade, nos sentaríamos espantados de que a divindade não tivesse nos destruído ali mesmo. E lá nosso profundo eu tremeríamos diante dela com reverência e humildade agradecidos, enquanto os outros canalhas sóbrios nos envolveriam com seus braços e nos banhariam com suas lágrimas de compaixão!
Wednesday, August 19, 2009
Somos Todos Canalhas Enrustidos
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Monday, August 17, 2009
Vivemos na mesma realidade?
Mais lembranças tenho eu do que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo... Meus sonhos são como a vossa vigília... Minha memória, senhor, é como depósito de lixo. "Funes, o memorioso", Jorge Luís Borges.
Quando criticamos ou desprezamos alguém porque tem uma opinião diferente da nossa dificilmente nos apercebemos que partimos da idéia não comprovada de que eu e essa pessoa vemos o mundo da mesma forma. Mas será isso verdade? Vivemos todos na mesma realidade?
Fiquei sabendo do caso de uma pessoa que tinha um problema visual, não suspeitado por ela, que a impedia de ter uma visão com a qualidade comum de profundidade que a maioria experimenta. Dá para imaginar os problemas que essa pessoa enfrentava para se locomover. Ela não sabia que a realidade de sua visão era diferente da realidade das outras pessoas. Por isso não podia entender porque locomover-se no mundo tridimensional era algo tão mais complicado para ela. Seria incapacidade intelectual, seria inabilidade pessoal? Um dia ela descobriu o problema que a impedia de ver a dimensão de profundidade e o consertou. Sua vida mudou!
Um dia um velho pai ou mãe olha para o filho ou a filha e pergunta: "Mas, quem é você?" Primeiro a pessoa pensa tratar-se de brincadeira. Porém, mantida a dúvida, vem o susto: o que está acontecendo? Posteriormente, após muitos exames e muito sofrimento, descobre-se que o progenitor amado adquiriu DA [Doença de Alzheimer]. Então começa-se a entender que uma parte dos neurônios com suas sinapses foi subtraída da mente dele. Justamente daquela área do cérebro que guardava as memórias relativas a história conjunta dele(a) com seus filhos. A partir de então se sabe que aquela pessoa já não vê a realidade da mesma maneira que nós vemos. A partir de então, será necessário desenvolver um novo tipo de relacionamento.
No cinema, só para citar um caso, temos o filme "Como se fosse a primeira vez", de Pete Segal, no qual a protagonista, depois de um acidente perde a capacidade da memória a curto prazo e seu namorado precisa conquistá-la todos os dias novamente, pois todas as noites sua memória do dia é apagada. Ele até faz um vídeo de todos os acontecimentos da época do acidente da namorada para que ela possa refrescar a memória todos os dias. Pense como seria ser casado com uma mulher assim. Acordar com ela no dia seguinte e ouví-la perguntar assustada: "Quem é você e o que está fazendo na minha cama?"
Além disso, também é preciso saber que a personalidade depende daquilo que ficou gravado nos neurônios e suas sinapses. Estamos falando não só dos eventos em si, mas de tudo aquilo que a mente percebeu e gravou juntamente com ele. Nós pensamos com o corpo e nossas emoções [veja mais detalhes] . No livro "O erro de Descartes", o neurologista e neurocientista português Prof. Dr. António Rosa Damásio, mostra que uma lesão num determinado ponto do cérebro humano, mesmo sem tirar-lhe a capacidade de raciocionar corretamente, pode mudar completamente a personalidade de uma pessoa.
Tudo isso leva-nos a pensar que vivemos em mundos diferentes. Ninguém vê o mundo da mesma maneira. Logo, ninguém reage às mesmas circunstâncias da mesma maneira. Talvez não precisemos adotar o solipsismo[1] radical. Porém, devemos abrir um espaço para compreender que se as diferenças fisiológicas podem nos levar a mundos diferentes, também o fazem nossa história, nossa cultura e o meio ambiente. A maneira como fomos criados, nossa cosmovisão, o conjunto de verdades que cremos regem a nossa maneira de interpretar e agir no mundo.
Voltaremos a essa reflexão futuramente.
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[1] O SOLIPSISMO é a idéia de que a única realidade é o próprio EU, é que tudo o mais não tem existência em si própria, ou não se pode comprovar tal existência. A ilusão do mundo então, incluindo as outras pessoas, seria uma projeção da mente.
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