Mais lembranças tenho eu do que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo... Meus sonhos são como a vossa vigília... Minha memória, senhor, é como depósito de lixo. "Funes, o memorioso", Jorge Luís Borges.
Quando criticamos ou desprezamos alguém porque tem uma opinião diferente da nossa dificilmente nos apercebemos que partimos da idéia não comprovada de que eu e essa pessoa vemos o mundo da mesma forma. Mas será isso verdade? Vivemos todos na mesma realidade?
Fiquei sabendo do caso de uma pessoa que tinha um problema visual, não suspeitado por ela, que a impedia de ter uma visão com a qualidade comum de profundidade que a maioria experimenta. Dá para imaginar os problemas que essa pessoa enfrentava para se locomover. Ela não sabia que a realidade de sua visão era diferente da realidade das outras pessoas. Por isso não podia entender porque locomover-se no mundo tridimensional era algo tão mais complicado para ela. Seria incapacidade intelectual, seria inabilidade pessoal? Um dia ela descobriu o problema que a impedia de ver a dimensão de profundidade e o consertou. Sua vida mudou!
Um dia um velho pai ou mãe olha para o filho ou a filha e pergunta: "Mas, quem é você?" Primeiro a pessoa pensa tratar-se de brincadeira. Porém, mantida a dúvida, vem o susto: o que está acontecendo? Posteriormente, após muitos exames e muito sofrimento, descobre-se que o progenitor amado adquiriu DA [Doença de Alzheimer]. Então começa-se a entender que uma parte dos neurônios com suas sinapses foi subtraída da mente dele. Justamente daquela área do cérebro que guardava as memórias relativas a história conjunta dele(a) com seus filhos. A partir de então se sabe que aquela pessoa já não vê a realidade da mesma maneira que nós vemos. A partir de então, será necessário desenvolver um novo tipo de relacionamento.
No cinema, só para citar um caso, temos o filme "Como se fosse a primeira vez", de Pete Segal, no qual a protagonista, depois de um acidente perde a capacidade da memória a curto prazo e seu namorado precisa conquistá-la todos os dias novamente, pois todas as noites sua memória do dia é apagada. Ele até faz um vídeo de todos os acontecimentos da época do acidente da namorada para que ela possa refrescar a memória todos os dias. Pense como seria ser casado com uma mulher assim. Acordar com ela no dia seguinte e ouví-la perguntar assustada: "Quem é você e o que está fazendo na minha cama?"
Além disso, também é preciso saber que a personalidade depende daquilo que ficou gravado nos neurônios e suas sinapses. Estamos falando não só dos eventos em si, mas de tudo aquilo que a mente percebeu e gravou juntamente com ele. Nós pensamos com o corpo e nossas emoções [veja mais detalhes] . No livro "O erro de Descartes", o neurologista e neurocientista português Prof. Dr. António Rosa Damásio, mostra que uma lesão num determinado ponto do cérebro humano, mesmo sem tirar-lhe a capacidade de raciocionar corretamente, pode mudar completamente a personalidade de uma pessoa.
Tudo isso leva-nos a pensar que vivemos em mundos diferentes. Ninguém vê o mundo da mesma maneira. Logo, ninguém reage às mesmas circunstâncias da mesma maneira. Talvez não precisemos adotar o solipsismo[1] radical. Porém, devemos abrir um espaço para compreender que se as diferenças fisiológicas podem nos levar a mundos diferentes, também o fazem nossa história, nossa cultura e o meio ambiente. A maneira como fomos criados, nossa cosmovisão, o conjunto de verdades que cremos regem a nossa maneira de interpretar e agir no mundo.
Voltaremos a essa reflexão futuramente.
------------------------------------------------------------------------------------------------
[1] O SOLIPSISMO é a idéia de que a única realidade é o próprio EU, é que tudo o mais não tem existência em si própria, ou não se pode comprovar tal existência. A ilusão do mundo então, incluindo as outras pessoas, seria uma projeção da mente.
No comments:
Post a Comment