Saturday, November 28, 2009

Pascal e a Natureza Humana - Parte II

Já faz mais de uma década eu conversei com um jovem universitário que estava convalescendo de uma tentativa de suicídio num hospital. Quando eu lhe perguntei por que havia feito aquilo ele olhou-me nos olhos e disse: "Tédio!". Um terrível e desesperador tédio de estar vivo. Quem nunca sentiu tédio? Quando um dos meus filhos era pequeno, de vez em quando ele vinha para mim e perguntava: "Pai, o que eu faço agora?" Eu lhe respondia ora, brinca com isso ou aquilo. Ele me respondia: "Eu já brinquei." Eu ficava um pouco desesperado internamente e dizia para ele: "Procure algo que você ainda não fez e faça!" Esperando que ele encontrasse algo que distraísse sua atenção e o libertasse do tédio. Tédio e divertimento. Buscamos divertimento para nos livrar do tédio. Mas, o que é o tédio e o que é o divertimento?

Além do meu diário, manuscrito, costumo escrever os pensamentos que me passam pela mente nas minhas agendas de compromissos. Tenho muitas dessas agendas guardadas. Eis a seguir algumas entradas delas:

O mundo jaz nos desejos. Se não houvesse prazer em reproduzir a humanidade já teria se acabado. Se não houvesse prazer em se alimentar, as pessoas morreriam de inanição. Se não houvesse dor e sofrimento na morte, o índice de suicídio seria catastrófico. [02/11/2009]
 A ÚNICA VERDADEIRA QUESTÃO: A vida tem um sentido? Se dissermos sim, então esse sentido não pode fazer parte da ordem das coisas que acostumamos chamar de realidade. Algo externo a essa realidade poderia ser chamado de Deus. Se não existir algo externo a esse mundo, então esse mundo não pode ter sentido. Se o mundo realmente não tem sentido, então para continuarmos a viver, precisamos arranjar alguma coisa que nos distraia dessa percepção. Qualquer coisa que possa constituir-se na nossa razão de viver. Pode ser a arte, a religião, a política, o prazer, a droga, o poder, o sexo... qualquer coisa que tire a nossa atenção de nós mesmos e da nossa falta de sentido, do nosso vazio interior...
Se não há nada além da realidade onde vivemos, então ou nos enganamos e continuamos a farsa ou, então, nos matamos e terminamos o tédio. Os sofrimentos dessa vida, a dor, também são distrações para o tédio. Muitas pessoas vivem pela dor.
"Vida boa, vou ficar à toa, sem me aborrecer" diz a canção do filme infantil "O Pequeno Urso".
Fazer algo só por fazer. Buscar a excelência em alguma coisa só pela própria coisa em si. Não questionar nada, aceitar o absurdo da vida e fazer o melhor. [20/11/2009]
Sou como um viciado em crack cujo fornecedor já não atende. Cresce dentro de mim a fissura pelo "meu crack". Desejo ardentemente aquela fumaça que me faz esquecer por apenas alguns minutos quem eu sou, porque estou aqui, para onde vou... Desejo luxuriosamente aquela pedra, fonte do meu nirvana existencial. Aquela pedra que me dissolve num nada de prazer sensorial... Quem me livrará desse mundo sem sentido e sem propósito? Quisera que a morte me lançasse no mar do esquecimento, na dimensão do não-ser... [9/10/2009]
A maioria quase absoluta das pessoas segue inconsciente do vazio, do tédio que habita o seu interior. Algumas são industriosas, agitadas, correndo daqui para ali, fazendo coisas. Elas acham que o que as move são seus ideais, são seus desejos de fazer alguma coisa para a humanidade. Elas se enganam com bons pensamentos sobre suas realizações. Elas não sabem ou não querem saber que aquilo que as puxa para essas "grandes obras" vem do seu vazio interior, do imenso tédio que tenazmente as assedia. Elas amaldiçoariam você se as convencesse do contrário. Tirar o véu da ilusão dos olhos delas traria uma dor insuportável. Elas costumam eliminar aqueles que abrem seus olhos.

Achei interessante que Pascal desvendasse esse cenário interior do homem. Ele começa no seu livro póstumo "Pensamentos", a descrever o que ele chama de "Miséria do homem sem Deus". Naturalmente Pascal é cristão e entende que tem a chave que livra o homem da sua miséria interior, ou seja, Deus. Mas vamos citar e comentar os argumentos de Pascal sobre a miséria do homem.

Ele inicia criticando Montaigne que "pensava apenas em morrer de maneira covarde, doce, em todo o seu livro". Mas em seguida, ele admite que não é diferente de Montaigne:
"Não é em Montaigne, mas em mim mesmo que encontro tudo o que nele vejo." [Pensamentos, p. 64]
Segue examinando a desproporção do homem diante do universo. Ele afirma que homem percebe apenas a aparência das coisas e entra num eterno desespero por não poder conhecer nem o seu princípio nem o seu fim. Ele havia perguntado:
Que é o homem dentro da natureza, afinal? Nada em relação ao infinito; tudo em relação ao nada; um ponto intermediário entre tudo e nada. Infinitamente incapaz de compreender os extremos; tanto o fim das coisas como seu princípio mantêm-se ocultos num segredo impenetrável, e é-lhe igualmente impossível ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve. [Pensamentos, p. 72]

 Ele procura chamar atenção dos seus leitores para o fato de que o homem tem que ser humilde e reconhecer sua finitude, pois ele é "algo e não tudo". [Pensamentos, p. 72] Ele quer demonstrar que o homem está condenado a viver num meio-termo:
Em suma, as coisas extremas são para nós como se não existissem, não estamos dentro de suas proporções: escapam-nos ou lhes escapamos... Nadamos num amplo meio-termo, sempre incertos e flutuantes, empurrados de um lado para outro. [Pensamentos, p. 72]
Com isso ele quer tranquilizar-nos. Ele quer que aceitemos a nossa condição nesse mundo: sabemos um pouco, mas ignoramos muito. Conhecemos um pouco, mas não estamos conscientes da vastidão e da pequenez do Universo.

Talvez um exemplo nos ajude a entender. Voava eu de Santa Catarina para o Paraná e, ao sobrevoar a região de Maringá de repente tomei consciência mais uma vez da complexidade daquela situação em que me encontrava. Primeiro, eu estava voando. Sim, estava num lugar que não foi dado ao homem para estar. Depois, abaixo de mim se descortinava uma imagem de uma imensa planura que se estendia para todas as direções. Eu estava acima das nuvens, mas não podia ver o final da parte "plana" da terra, onde deveriam estar plantados os meus pés. Na realidade, quando eu estava plantado sobre os meus pés na terra, eu perdia toda a consciência do que era estar ali, acima da terra. Ou estava submergido na minha condição de formiga ou estava consciente da minha condição de pássaro. Entendi que eu tinha dificuldade de viver como formiga, consciente da visão do pássaro. Lá de cima eu via duas estradas que se bifurcavam e se afastavam uma da outra. Sobre essas duas estradas havia dois pequeninos retângulos que estavam praticamente imóveis à minha vista. Entendi que eram dois carros que percorriam velozmente aqueles caminhos, alheios um do outro, por causa da distância que se encontravam um do outro. Lembrei-me que quando eu estava no meu carro percorrendo uma estrada não tinha consciência daquela visão privilegiada que agora gozava. Ou estava no carro numa visão limitada, ou estava no espaço numa visão privilegiada. Assim, me vi extremamente limitado na conscientização da minha situação.

Quer viver tranquilo? Pascal aconselha:
Não procuremos, assim, segurança e firmeza. Nossa razão sempre é iludida pela inconstância das aparências e nada pode fixar o finito entre os dois infinitos que o cercam e dele se afastam. [Pensamentos, p. 72]
O que Pascal não conseguia ver naquela época era que o homem, usando sua pequena inteligência, trilharia um caminho de superação das suas limitações. Ele não viu também que ele foi um dos responsáveis por essa tendência de superação. Ele inventou a máquina de calcular, precursora  dos nossos modernos computadores. Ora, o que são computadores, aviões, telescópios, microscópios, robots, etc? Eles são próteses para extensão da nossa capacidade de atuar, compreender e perceber o universo. Um exemplo talvez nos deixe bem esclarecidos dessa caminhada de superação das nossas limitações. Até pouco tempo atrás nenhum ser humano podia ver com clareza no escuro. Ele era limitado pelo espectro visível que seus olhos poderiam perceber. No entanto, com os dispositivos infravermelhos e com os dispositivos de amplificação da luz o homem vê no escuro. Seu espectro foi estendido por uma prótese, os equipamentos de visão noturna [veja, por exemplo, http://eletronicos.hsw.uol.com.br/visao-noturna.htm].

É muito interessante que Pascal tenha uma visão da possibilidade do conhecimento substancial parecido com alguns dos nossos gurus contemporâneos. Como tudo está ligado com tudo, todas as coisas são causadoras e causadas simultâneamente, então para ele é impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, bem como entender o todo sem entender particularmente as partes. E, para complicar a situação do homem, Pascal entendia que a dualidade corpo-mente trazia um complicador adicional na capacidade de apreensão e compreensão do homem:
E o que completa nossa capacidade de conhecer as coisas é o fato de ser elas simples em si, enquanto nós somos formados por duas naturezas antagônicas e de gêneros diversos, alma e corpo. Pois é impossível que a parte raciocinante de nós não seja exclusivamente espiritual; e, caso se pretenda que somos apenas corporais, afastar-se-á mais ainda de nós o conhecimento das coisas, pois nada é mais inconcebível do que diaer que a matéria conhece a si mesma: não podemos conceber de que maneira se conheceria. Assim, se [somos] simplesmente materiais, nada podemos conhecer; e se somos compostos de espírito e matéri, não podemos conhecer perfeitamente as coisas simples, espirituais ou corporais. [Pensamentos, p. 72]
 Pascal se esqueceu que podemos dividir para conquistar. As coisas complexas podem ser subdivididas para serem compreendidas. Por exemplo, cálculos aritméticos foram realizados pela sua máquina. Isso é uma pequena parte do computador, que é uma máquina mais complexa, agregada de inúmeras partes mais simples. Na realidade, no computador digital tudo se reduz a 0 e 1. Em princípio, a Inteligência Artificial não teria futuro na abordagem de Pascal. Mas o seu invento o contraditou. Hoje os cientistas falam em trazer emoções para os computadores. Isso vai muito além do que Pascal poderia admitir, já que ele pensa que o raciocínio não pode ser realizado no nível material, mas apenas no nível espiritual. Mas isso é uma outra conversa.

Friday, November 27, 2009

Pascal e a Natureza Humana - Parte 1

Somos apenas mentira, duplicidade, contrariedade, ocultando-nos e disfarçando-nos de nós mesmos. [Pascal, Pensamentos, Nova Cultural, p. 377]
 É óbvio que para entender os escritos de Pascal, seria necessário conhecer também um pouco da sua vida. Mas, não querendo nos alongar apenas diremos o mínimo necessário para situá-lo no tempo e no espaço. Ele nasceu na França em 19/06/1623. Filho de Étienne Pascal, matemático, foi educado por seu pai, nunca tendo sido enviado a colégios. Desejando que o filho estudasse línguas, manteve-o afastado da matemática o quanto pôde, até descobrir estarrecido que o filho tinha chegado sozinho até a 32a. proposição geométrica do livro I de Euclides. Desde criança "queria saber a razão de todas as coisas e não se satisfazia diante de explicações incompletas ou superficiais". Aos 16 anos escreveu um Tratado Sobre as Cônicas, aos 19 anos inventou a máquina aritmética, considerada "uma verdadeira revolução, pois transformava uma máquina em ciência, ciência que reside inteiramente no espírito". Uniu-se aos jansenitas de Port-Royal, interessando-se pelas discussões sobre a Bíblia, buscando conciliar as teses dos partidários da Reforma sobre a graça com a doutrina católica.

Sua espiritualidade foi profundamente marcada pela cura milagrosa da sobrinha, fato esse conhecido como "milagre do Santo Espinho", que reforçou-lhe a tendência mística e a certeza de que "há alguma coisa acima daquilo que chamamos natureza". Vive tanto uma fase de militância religiosa como de recolhimento e reflexão. Após a condenação do jansenismo, Pascal submete-se ao poder papal e, na terceira fase de sua vida, volta-se para a cência. Ele vive no século XVII, que busca um método que torne legítimo e seguro o conhecimento. Período influenciado pelas idéias de Bacon, Descartes, Espinosa, os jansenistas de Port-Royal e Leibniz.

Uma das maiores obras de Pascal foi Pensamentos, onde fazendo coro aos jansenistas trágicos acredita que "a incerteza recobre tudo e que a vida cristã é um misto de esperança e tremor. Deus se esconde irremediavelmente e não há Graça que o torne manifesto ao homem. Como Deus abandona o mundo e a Igreja, o homem só pode ser um miserável pecador. No terceiro período de sua vida, Pascal vive assim o paradoxo de ter de se submeter ao poder monárquico e eclesiástico, e de dedicar-se aos trabalhos científicos, ao mesmo tempo que admite a incerteza radical de tudo. Assume então o paradoxo jansenista do "pecador justo", do homem que vive simultaneamente na recusa e aceitação do mundo".

"Para Pascal o ponto de partida para se subir à fé é o autoconhecimento... sua grandeza vem de sua origem divina, sua esperança de salvação é sustentada pela redenção de Jesus Cristo, sem a qual o conhecimento de Deus seria inútil para o homem". [Citações originadas de Pascal, Pensamentos, Editora Nova Cultura, 1999].

Pascal viveu apenas 39 anos e morreu em Paris, aos 29 de agosto de 1662. Padeceu intensos sofrimentos, suportando-os com grande resignação. Suas últimas palavras foram: "Que Deus jamais me abandone!".