Friday, November 27, 2009

Pascal e a Natureza Humana - Parte 1

Somos apenas mentira, duplicidade, contrariedade, ocultando-nos e disfarçando-nos de nós mesmos. [Pascal, Pensamentos, Nova Cultural, p. 377]
 É óbvio que para entender os escritos de Pascal, seria necessário conhecer também um pouco da sua vida. Mas, não querendo nos alongar apenas diremos o mínimo necessário para situá-lo no tempo e no espaço. Ele nasceu na França em 19/06/1623. Filho de Étienne Pascal, matemático, foi educado por seu pai, nunca tendo sido enviado a colégios. Desejando que o filho estudasse línguas, manteve-o afastado da matemática o quanto pôde, até descobrir estarrecido que o filho tinha chegado sozinho até a 32a. proposição geométrica do livro I de Euclides. Desde criança "queria saber a razão de todas as coisas e não se satisfazia diante de explicações incompletas ou superficiais". Aos 16 anos escreveu um Tratado Sobre as Cônicas, aos 19 anos inventou a máquina aritmética, considerada "uma verdadeira revolução, pois transformava uma máquina em ciência, ciência que reside inteiramente no espírito". Uniu-se aos jansenitas de Port-Royal, interessando-se pelas discussões sobre a Bíblia, buscando conciliar as teses dos partidários da Reforma sobre a graça com a doutrina católica.

Sua espiritualidade foi profundamente marcada pela cura milagrosa da sobrinha, fato esse conhecido como "milagre do Santo Espinho", que reforçou-lhe a tendência mística e a certeza de que "há alguma coisa acima daquilo que chamamos natureza". Vive tanto uma fase de militância religiosa como de recolhimento e reflexão. Após a condenação do jansenismo, Pascal submete-se ao poder papal e, na terceira fase de sua vida, volta-se para a cência. Ele vive no século XVII, que busca um método que torne legítimo e seguro o conhecimento. Período influenciado pelas idéias de Bacon, Descartes, Espinosa, os jansenistas de Port-Royal e Leibniz.

Uma das maiores obras de Pascal foi Pensamentos, onde fazendo coro aos jansenistas trágicos acredita que "a incerteza recobre tudo e que a vida cristã é um misto de esperança e tremor. Deus se esconde irremediavelmente e não há Graça que o torne manifesto ao homem. Como Deus abandona o mundo e a Igreja, o homem só pode ser um miserável pecador. No terceiro período de sua vida, Pascal vive assim o paradoxo de ter de se submeter ao poder monárquico e eclesiástico, e de dedicar-se aos trabalhos científicos, ao mesmo tempo que admite a incerteza radical de tudo. Assume então o paradoxo jansenista do "pecador justo", do homem que vive simultaneamente na recusa e aceitação do mundo".

"Para Pascal o ponto de partida para se subir à fé é o autoconhecimento... sua grandeza vem de sua origem divina, sua esperança de salvação é sustentada pela redenção de Jesus Cristo, sem a qual o conhecimento de Deus seria inútil para o homem". [Citações originadas de Pascal, Pensamentos, Editora Nova Cultura, 1999].

Pascal viveu apenas 39 anos e morreu em Paris, aos 29 de agosto de 1662. Padeceu intensos sofrimentos, suportando-os com grande resignação. Suas últimas palavras foram: "Que Deus jamais me abandone!". 

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