TÉDIO E DIVERTIMENTO
Divertimento - Sobrecarregamos os homens, desde a infância, com o cuidado de sua honra, de sua riqueza, de seus amigos, e ainda com o cuidado da riqueza e da honra desses amigos. Cansamos os homens com negócios, com o estudo de línguas e exercícios, e fazemos com que sintam não poder ser felizes sem que a sua saúde, honra e fortuna, e as de seus amigos, estejam em ordem, e que basta faltar uma dessas coisas para que se tornem infelizes. E lhes impomos encargos e negócios que os atormentam desde que o dia amanhece. Aí está, direis, uma estranha maneira de torná-los felizes! Que haveria de melhor para torná-los infelizes? Como! Que haveria de melhor? Bastaria tirar-lhes todas essas ocupações; então se veriam a si mesmos, pensariam no que são, de onde vêm e para onde vão. Nunca será demais, assim, ocupá-los, nem jamais os distrairemos muito. E é por isso que, depois de sobrecarregá-los de negócios, caso ainda lhes sobre tempo para o descanso, nós os aconselhamos a empregá-los em divertimentos e no jogo, e a permanecer, sempre, totalmente ocupados.
Na realidade, ninguém consegue verdadeiramente viver plenamente consciente da falta de sentido da vida quando se está convencido que Deus não existe. Se Deus não existe, então como, pelas barbas do profeta, nós chegamos aqui? Se Deus não existe então, com todos os prazeres do mundo, o que estamos fazendo aqui? Se Deus não existe, então para onde vamos quando morrermos aqui? Acredito que tudo na civilização humana é um esforço para esquecer que estamos aqui e que sabemos disso! Se eu não tenho um propósito final então posso ter um propósito imediato, depois outro, depois outro, até não ter mais propósito algum. Distração faz parte do esforço para me esquecer do propósito final inexistente. Quem, em sã consciência, suportaria estar consciente 24 horas por dia que a vida não tem um propósito final? A grande questão então é saber se dentre as religiões praticadas pelo homem se verdadeiramente existe uma que escapa a esta motivação fundamental: ocupar nossa consciência para esquecermos o fato principal de que não há um Deus lá fora nos esperando.Como é vazio e cheio de baixeza o coração do homem! [Pensamentos, p. 143]
Divertimento - É mais fácil suportar a morte quando não se pensa nela do que pensar na morte sem perigo. [Pensamentos, p. 166]
Divertimento - As misérias da vida humana criaram tudo isso: como eles viram isso, escolheram o divertimento. [Pensamentos, p. 167]
Divertimento - Por ser incapazes de curar a morte, a miséria, a ignorância, os homens lembraram-se, para ser felizes, de não pensar nisso tudo. [Pensamentos, p. 168]
Miséria - A única coisa que nos consola das nossas misérias é o divertimento, e, no entanto, essa é a maior das nossas misérias. É isso que nos impede, principalmente, de pensar em nós, e que insensivelmente nos perde. Sem isso, estaríamos desgostosos, e esse desgosto nos levaria a buscar um modo mais sólido de sair dele. Mas o divertimento nos contenta e nos conduz insensivelmente à morte. [Pensamentos, p. 171]Tudo que desgosta o homem parte do princípio de que ele nada pode fazer para mudar o seu estado de falta de sentido na vida. Daí ele não só decide não mais pensar nisso como se afasta de pessoas que se obrigam a pensar sobre isso. Mas de fato não existem divertimentos sadios e verdadeiros? Todo divertimento que procura nos fazer parar de pensar na morte e na aniquilação do ser não são sadios nem verdadeiros. O verdadeiro divertimento seria aquele que nasceria de uma visão realista de um mundo futuro promissor com as maravilhas do mundo presente e sem as suas mazelas. Todo divertimento real deveria ser uma celebração de uma existência futura prazerosa, um emergir do outro lado da morte para uma vida sem fim, plena de significado. Os momentos de prazer e alegria nessa vida seriam antecipações da eterna felicidade que se seguiria à nossa morte num mundo restaurado, onde a morte não mais teria o seu lugar. Os momentos de dor seriam um lembrete que esse mundo não é como deveria ser e que a dor seria uma antecipação das dores de parto da grande transformação cósmica quando então nasceria a grande era infindável do prazer e do significado pleno.
Mas como podemos estar certos de que há um mundo assim nos esperando?