Monday, December 7, 2009

Pascal e a Natureza Humana - Parte VI

TÉDIO E DIVERTIMENTO
Divertimento - Sobrecarregamos os homens, desde a infância, com o cuidado de sua honra, de sua riqueza, de seus amigos, e ainda com o cuidado da riqueza e da honra desses amigos. Cansamos os homens com negócios, com o estudo de línguas e exercícios, e fazemos com que sintam não poder ser felizes sem que a sua saúde, honra e fortuna, e as de seus amigos, estejam em ordem, e que basta faltar uma dessas coisas para que se tornem infelizes. E lhes impomos encargos e negócios que os atormentam desde que o dia amanhece. Aí está, direis, uma estranha maneira de torná-los felizes! Que haveria de melhor para torná-los infelizes? Como! Que haveria de melhor? Bastaria tirar-lhes todas essas ocupações; então se veriam a si mesmos, pensariam no que são, de onde vêm e para onde vão. Nunca será demais, assim, ocupá-los, nem jamais os distrairemos muito. E é por isso que, depois de sobrecarregá-los de negócios, caso ainda lhes sobre tempo para o descanso, nós os aconselhamos a empregá-los em divertimentos e no jogo, e a permanecer, sempre, totalmente ocupados.
Como é vazio e cheio de baixeza o coração do homem! [Pensamentos, p. 143]
 Na realidade, ninguém consegue verdadeiramente viver plenamente consciente da falta de sentido da vida quando se está convencido que Deus não existe. Se Deus não existe, então como, pelas barbas do profeta, nós chegamos aqui? Se Deus não existe então, com todos os prazeres do mundo, o que estamos fazendo aqui? Se Deus não existe, então para onde vamos quando morrermos aqui? Acredito que tudo na civilização humana é um esforço para esquecer que estamos aqui e que sabemos disso! Se eu não tenho um propósito final então posso ter um propósito imediato, depois outro, depois outro, até não ter mais propósito algum. Distração faz parte do esforço para me esquecer do propósito final inexistente. Quem, em sã consciência, suportaria estar consciente 24 horas por dia que a vida não tem um propósito final? A grande questão então é saber se dentre as religiões praticadas pelo homem se verdadeiramente existe uma que escapa a esta motivação fundamental: ocupar nossa consciência para esquecermos o fato principal de que não há um Deus lá fora nos esperando.
Divertimento - É mais fácil suportar a morte quando não se pensa nela do que pensar na morte sem perigo. [Pensamentos, p. 166]
Divertimento - As misérias da vida humana criaram tudo isso: como eles viram isso, escolheram o divertimento. [Pensamentos, p. 167]
Divertimento - Por ser incapazes de curar a morte, a miséria, a ignorância, os homens lembraram-se, para ser felizes, de não pensar nisso tudo. [Pensamentos, p. 168]
Miséria - A única coisa que nos consola das nossas misérias é o divertimento, e, no entanto, essa é a maior das nossas misérias. É isso que nos impede, principalmente, de pensar em nós, e que insensivelmente nos perde. Sem isso, estaríamos desgostosos, e esse desgosto nos levaria a buscar um modo mais sólido de sair dele. Mas o divertimento nos contenta e nos conduz insensivelmente à morte. [Pensamentos, p. 171]
Tudo que desgosta o homem parte do princípio de que ele nada pode fazer para mudar o seu estado de falta de sentido na vida. Daí ele não só decide não mais pensar nisso como se afasta de pessoas que se obrigam a pensar sobre isso. Mas de fato não existem divertimentos sadios e verdadeiros? Todo divertimento que procura nos fazer parar de pensar na morte e na aniquilação do ser não são sadios nem verdadeiros. O verdadeiro divertimento seria aquele que nasceria de uma visão realista de um mundo futuro promissor com as maravilhas do mundo presente e sem as suas mazelas.  Todo divertimento real deveria ser uma celebração de uma existência futura prazerosa, um emergir do outro lado da morte para uma vida sem fim, plena de significado. Os momentos de prazer e alegria nessa vida seriam antecipações da eterna felicidade que se seguiria à nossa morte num mundo restaurado, onde a morte não mais teria o seu lugar. Os momentos de dor seriam um lembrete que esse mundo não é como deveria ser e que a dor seria uma antecipação das dores de parto da grande transformação cósmica quando então nasceria a grande era infindável do prazer e do significado pleno.

Mas como podemos estar certos de que há um mundo assim nos esperando?

Thursday, December 3, 2009

Pascal e a Natureza Humana - Parte V

TÉDIO E DIVERTIMENTO

Tédio - Nada é mais insuportável ao homem do que um repouso total, sem paixões, sem negócios, sem distrações, sem atividade. Sente então seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio. No mesmo instante virá do fundo de sua alma o tédio, a escuridão, a melancolia, a pena, o despeito, o desespero. [Pensamentos, p. 131]
Assim se escoa a vida. Procuramos o repouso combatendo alguns obstáculos; e, quando estes são superados, o repouso torna-se insuportável. Porque ou refletimos acerca das misérias presentes ou daquelas que nos põem em risco. E, mesmo que nos sentíssemos bem guardados por todos os lados, o tédio, por sua autoridade privada, continuaria a sair do fundo do coração, onde tem raízes naturais, e a encher nosso espírito com seu veneno. [Pensamentos, p. 139]
Divertimento - Seja qual for a condição que imaginemos, pela reunião de todos os bens que nos podem pertencer, concluímos que a realeza é o mais belo posto do mundo. Imaginemos, entretanto, um rei acompanhado de todas as satisfações que dela decorrem, mas sem divertimentos; que considere e medite sobre o que é, e essa felicidade lânguida não mais irá se sustentar. Acabará forçosamente notando as coisas que lhe trazem ameaças, as revoltas que podem estourar, e, por fim, a morte e as doenças inevitáveis. De sorte que, se ficar sem aquilo que se chama divertimento, ei-lo infeliz, [mais] infeliz que o mais ínfimo de seus súditos, que goza e se diverte. [Pensamentos, p. 139]
 Não seria absurdo afirmar que todas as realizações da humanidade partem da fuga do tédio e da busca do divertimento. Qualquer ser humano que pensa não suporta ficar sozinho consigo mesmo. Ele precisa de divertimento para afastar o tédio. Especialmente nos dias em que vivemos há uma epidemia de tédio e divertimento. Veja bem, quanto mais tédio, mais busca frenética pelo divertimento que afasta o tédio. O tédio, sob um determinado aspecto é benigno: nos faz pensar sobre o que somos, quem somos. Mas como somos miseráveis, não suportamos ficar cara-a-cara conosco mesmos. Daí  quem nos poderá salvar? Somente o divertimento. Melancolia é a palavra antiga para o que conhecemos hoje como depressão. Síndrome do pânico é o medo da vida. A falta de sentido, o vazio, trás o medo de viver. Distúrbio do pânico é aquilo que acomete a pessoa que descobre que já está morta, mesmo viva. Quando falamos em divertimento, não estamos falando em passar a vida num parque de diversões. Isso também, mas principalmente estar dedicado a alguma coisa apaixonante. Ter uma paixão dominante que não deixa tempo para pensar quem somos, onde estamos e para onde vamos. A humanidade se especializou em criar alternativas para os homens se esquecerem de si mesmos. O desenvolvimento da humanidade passa pela paixão dos homens.
Divertimentos - Nas ocasiões em que tratei de considerar as diferentes agitações humanas, e os riscos e os castigos a que se expõem os homens, na corte e na guerra, provocando tantas lutas, tantas paixões, tantas realizações ousadas, e muitas vezes funestas, descobri que toda a felicidade dos homens provém de uma coisa só, que é a de ser incapazes de permanecer quietos em um quarto. [Pensamentos, p. 139]
Encontre um homem que está no final de sua vida. Ele já entrou na melhor idade, construiu uma reputação, casou-se, teve filhos, formou seus filhos, que saíram de casa, casaram-se. Agora ele está aposentado, muito velho para começar outra vida, muito novo para morrer [do ponto de vista dele, é claro]. Enquanto ele se dedicava a construir tudo isso, não pensava em si, não tinha tempo para isso. E se arrumasse tempo para isso logo se afastava horrorizado, buscando algo que o livrasse de tais pensamentos. Dinheiro, sexo e poder eram os lenitivos para sua dor interior de pensar em si mesmo. Mas agora, tudo isso se foi. Não precisa mais procriar. Não tem mais aquela disposição para o sexo, aliás tem uma reputação a zelar. Estou falando dos plebeus, pois os reis e os nobres têm seus privilégios e podem seguir nos seus divertimentos. Pois bem, um homem assim está pronto para morrer. De fato, ele definha e morre.
No entanto, ao refletir mais de perto sobre o assunto [do tédio], e, depois de ter encontrado a causa de todas as nossas infelicidades, pretendi descobrir-lhes o motivo; julguei que existe uma muito efetiva, que consiste na infelicidade natural de nossa condição fraca e mortal, e tão miserável que nada nos pode oferecer consulo quando sobre ela refletimos de perto. [Pensamentos, p. 139]
 Não é a taça do campeonato que trás felicidade ao homem, não é a anta que ele caça, mas é a disputa, é a caça, é a subida ao pico, mais do que chegar ao pico propriamente dito, na realidade é a concentração sobre a disputa, a caça e a escalada que distrai a mente do homem e o livra de pensar sobre si. Como diz Pascal:
Não é essa vida indolente e tranquila que nos proporciona tempo para refletir sobre a nossa infeliz condição, que buscamos; como não são os perigos da guerra, nem os aborrecimentos dos empregos; é o ruído, que nos afasta da reflexão acerca da nossa condição e nos diverte.
Essa lebre não nos livra da visão da morte e das misérias, mas a caça - nos desvia dela - dela nos livra.
E, assim, quando os alertamos de que aquilo que procuram com tanta energia não é capaz de os satisfazer, se respondessem, como deveriam fazer caso raciocinassem bem, que buscam nisso somente uma ocupação violenta, impetuosa, que lhes impeça de pensar em si mesmos, e que é por isso que se propõem um objeto fascinante que os encante e os atraia com entusiasmo, deixariam sem argumento os adversários. Mas não respondem dessa maneira, porque não conhecem a si mesmos. Não sabem que é a caça e não a presa que procuram.  [Pensamentos, p. 139]
Talvez isso explique a busca de adrenalina pelos jovens hoje: bungee jump, racha, sexo, drogas, rave, balada, tráfico... E a busca de adrenalina dos jovens de ontem, tais como Alexandre, Augusto: jogos, guerras e conquistas territoriais. E explica também porque os reis e os governantes têm sempre um grande número de pessoas ao seu redor que não os deixam um só instante sem divertimento. Um rei que pensa sobre si mesmo logo ficará infeliz. Um rei infeliz é preocupante. Nem mesmo a contemplação de sua própria glória pode impedir um rei de ficar infeliz, como nos diz Pascal:
Faça-se a experiência: deixe-se um rei sozinho refletir com serenidade em si, sem nenhuma satisfação dos sentidos, sem nenhum cuidado no espírito, sem companhia, e ver-se-á que um rei sem divertimento é um homem cheio de miséria. Por isso, tal coisa é cautelosamente evitada, e jamais falta, junto dos reis, grande número de indivíduos zelando para que os divertimentos sucedam aos negócios, observando-os durante seu descanso para lhes proporcionar prazeres e jogos, de maneira que não haja um vazio; são cercados de pessoas que cuidam maravilhosamente de impedir que o rei fique só e em situação de pensar em si, pois sabem que ele será miserável, apesar de rei, se tal acontecer. [Pensamentos, p. 142]
Talvez esteja aí a explicação do porque alguns de nós somos tão cheio de propósitos, projetos, atividades, relacionamentos, etc. A reflexão, a meditação, a solitude não é artigo procurado hoje em dia nesse mundo de correrias...

Wednesday, December 2, 2009

Pascal e a Natureza Humana - Parte IV

Como a natureza nos faz infelizes em todos os estados, nossos desejos inventam um estado feliz, porque adicionam ao estado em que nos encontramos os prazeres do estado em que não estamos; porém, se alcançássemos tais prazeres, também não seríamos felizes, porque teríamos outros desejos, em conformidade com o nosso novo estado. [Pensamentos, p. 109]
Pascal tem razão em dizer que somos, por natureza, insaciáveis e instáveis com relação aos nossos desejos? Minha esposa, que não lê Pascal, já sabia disso. Ela vive me dizendo exatamente isso. "Você nunca está satisfeito com as coisas que você tem ou com o lugar que você alcançou. Sempre quer aquilo que não tem ou aquilo que não alcançou." E ela tem razão. É assim mesmo que sou. Os meus sucessos não me satisfazem mais do que o meu desejo por aquilo que não conquistei, aquilo que ainda não alcancei. Restaria saber se ela está satisfeita apenas com aquilo que tem ou que conquistou. Ou se não está consciente dos desejos não satisfeitos que habitam o seu interior. No primeiro caso, ela me jogaria para a categoria dos imaturos, inconstantes e sem gratidão. No segundo, ela apenas não teria dado conta de que somos todos assim. Uns conscientes disso outros, não. Na realidade a coisa comigo é mais patológica do que eu gostaria de admitir. Algumas vezes constatei em mim o desejo de poder viver mil vidas. Parece que apenas uma vida não esgota em mim a sede de experimentar a vida de outros pontos-de-vista. E não estou falando aqui de reencarnação. Na realidade acho pouco experimentar a vida de um só ângulo. Para encontrar o sentido da existência é preciso integrar as inúmeras experiências de vida. Talvez venha daí o nosso prazer em ouvir narrativas, em assistir filmes e em ler romances e biografias. Seria uma forma de apreendermos um pouco do sentido da vida vivída em uma situação diferente da nossa. Talvez no futuro, com o desenvolvimento da inteligência artificial acompanhada da realidade artificial de imersão total possamos satisfazer essa sede de viver novas experiências. Ou, quem sabe tudo isso não passe somente de distração do "eu" que não quer realmente encarar a realidade da vida?

Por falar em inconstância da alma, inconstância do ser, Pascal tenta sintetizar a sua causa:
O sentimento da falsidade dos prazeres presentes e a ignorância da vaidade dos prazeres ausentes dão causa à inconstância. [Pensamentos, p. 110]
 Inconstância - Julgamos tocar órgãos ordinários quando tocamos o homem: são órgãos, na verdade, mas estranhos, mutantes, variáveis [cujos tubos não se seguem por graus conjuntos]. Os que sabem apenas tocar os ordinários não produziriam acordes nestes. É preciso saber onde se acham as teclas. [Pensamentos, p. 111]
Inconstância - As coisas têm diferentes qualidades e a alma, diversas tendências; porque nada daquilo que se oferta à alma é simples, e a alma nunca se oferta com simplicidade a assunto  algum. Eis por que, às vezes, choramos e rimos com uma só coisa. [Pensamentos, pl 112]
 Dessa inconstância que é o homem, desse choque de contrários pelo qual passa o homem, aparecem o tédio e a inquietação, aparece a necessidade do divertimento para espantar o tédio. Nos surpreenderemos em refletir sobre tédio e divertimento do ponto de vista de Pascal.

Pascal e a Natureza Humana - Parte III

Imaginação - É essa parte enganadora no homem essa senhora de engano e falsidade, tanto mais velhaca quanto não o é sempre...
Não falo dos loucos, e sim dos mais sábios, e é entre eles que a imaginação tem o imenso dom de persuadir os homens. Por mais que a razão grite, não pode valorizar as coisas.
Essa soberba potência inimiga da razão, que se deleita em mantê-la sob controle e domínio a fim de mostrar quanto pode em todas as coisas, estabeleceu no homem uma segunda natureza. Tem seus felizes, seus infelizes, seus sãos, seus doentes, seus ricos, seus pobres; faz crer, duvidar, negar a razão; suspende os sentidos, faz com que se os perceba; tem seus loucos e sábios: nada nos irrita mais do que contatar que enche seus hóspedes de uma satisfação bem mais plena e completa do que a razão. Os hábeis por imaginação comprazem-se muito mais em si mesmos do que os prudentes o conseguem de modo razoável. Observam os demais com autoridade; disputam com ousadia e confiança; os outros, com medo e desconfiança: essa alegria visível lhes proporciona, muitas vezes, vantagem, na opinião dos ouvintes, tal é a maneira como os sábios imaginários gozam mercê junto aos juízes de idêntica natureza! Não pode tornar sábios os loucos; mas os torna felizes, ao contrário da razão, que só pode tornar seus amigos miseráveis; uma ao cobrí-los de glória, outra, de vergonha.[Pensamentos, p. 82]
Pascal pensa que a razão tem uma inimiga poderosa que governa o mundo já que, infelizmente, as pessoas se entregam a ela com mais facilidade do que se entregam à razão: a imaginação. De que imaginação Pascal está falando? Não se trata da imaginação criativa, serva da razão. Trata-se antes de uma forma de cegueira que impede até mesmo os sentidos de se manifestarem. A pessoa imaginativa, no sentido em que Pascal está se referindo, cria a sua própria realidade, contrariando a razão e os sentimentos. Ela cria e vive dentro dessa realidade própria, esse mundo do faz-de-conta que zomba dos fatos. Podemos colocar aqui aqueles ditadores malucos que, tomando o poder, impõem suas ideologias aos seus infelizes conterrâneos. Podemos colocar aqui aqueles profetas estapafúrdios com suas utopias extraordinárias que carregam milhares de outros imaginativos que já desistiram de agir pela razão e pelos sentidos. Podemos colocar aqui aqueles sistemas religiosos que obrigam as pessoas a viverem de modo antinatural porque seu guru ou profeta mor viu isso nos seus sonhos idiotas. Não são muitos os que escapam do domínio dessa senhora enganadora e falsa.
Segundo Pascal, a imaginação distorce a visão das coisas. Ele chama a imaginação de fantasia. Ela funciona como uma lente que me faz ver o mundo sob luz diferente da realidade. Faz um homem odiar a outro porque se comporta de maneira contrária àquilo que nossa fantasia estabeleceu como aceitável. As velhas e as novas crendices têm o poder de nos enganar. Há também doenças que perturbam nosso julgamento e sentidos.
Infelizmente, se os sentidos e a razão, que são os pilares da verdade, não forem utilizados de maneira cuidadosa poderão levar também ao engano, constituindo-se em forças enganadoras. A origem mais forte do falseamento da realidade é a guerra entre os sentidos e a razão:
O homem não é senão um alguém cheio de erro, natural e indelével sem a graça. Nada lhe revela a verdade. Tudo o mantém iludido. Os dois princípios das verdades, a razão e os sentidos, não apenas necessitam de sinceridade como iludem-se um ao outro. Os sentidos, com suas aparências falsas, enganam a razão; e esse mesmo logro que ofertam à razão recebem-no dela, por seu turno. Ela revida. As paixões da alma perturbam os sentidos e provocam-lhe falsas impressões. Mentem e se enganam sem descanso. [Pensamentos, p. 83]
É interessante que Pascal diz que o papel da vontade na crença é fundamental. O ângulo pelo qual vemos a vida depende do exercício da vontade. As crianças crescem e desenvolvem uma visão de mundo que está ligada com os hábitos que se praticam na família. Isso significa que podemos corrigir nossa imaginação criando hábitos que nos farão ver a realidade de forma diferente:
Que são nossos princípios naturais senão princípios de hábitos? E nas crianças, os que receberam com os hábitos dos pais, como a caça entre os animais?
Hábitos diferentes dão-nos princípios naturais diferentes, é o que nos mostra a experiência; e, caso existam princípios que o hábito não pode eliminar, existem igualmente os do costume contra a natureza, inextinguíveis por esta, ou por um segundo costume. Tudo depende da disposição.  [Pensamentos, p. 92]
Os pais receiam que o amor natural de seus filhos desapareça. Que espécie de natureza será essa então, passível de extinção? O hábito é uma segunda natureza que destrói a primeira. Mas que é a natureza? Por que não é o hábito natural? Temo que tal natureza não seja ela própria nada além de um primeiro hábito, assim como o hábito é uma segunda natureza. [Pensamentos, p. 93]
Há diferença essencial e universal entre as ações da vontade e todas as outras.
A vontade é um dos órgãos principais da crença, não porque a forme, mas porque as coisas são verdadeiras ou falsas de acordo com o ângulo pelo qual as vemos. A vontade, que se satisfaz mais em um do que em outro,  afasta o espírito da consideração das qualidades que não deseja enxergar; de sorte que o espírito, marchando de comum acordo com a vontade, detém-se a olhar do ângulo que esta aprecia. Julga-se desse modo pelo que se vê. [Pensamentos, p. 99]
Bem daí, me parece que Pascal está dizendo que ainda que eu tenha sido educado numa forma imaginativa de ver o mundo que se oponha à realidade das coisas, pelo força da vontade, essa primeira natureza adquirida ao longo de uma vida pode ser mudada se aplicarmos a vontade para criarmos hábitos novos. À medida que hábitos novos vão sendo desenvolvidos pela vontade, uma nova visão da vida vai se estabelecendo em nosso ser.