Como a natureza nos faz infelizes em todos os estados, nossos desejos inventam um estado feliz, porque adicionam ao estado em que nos encontramos os prazeres do estado em que não estamos; porém, se alcançássemos tais prazeres, também não seríamos felizes, porque teríamos outros desejos, em conformidade com o nosso novo estado. [Pensamentos, p. 109]Pascal tem razão em dizer que somos, por natureza, insaciáveis e instáveis com relação aos nossos desejos? Minha esposa, que não lê Pascal, já sabia disso. Ela vive me dizendo exatamente isso. "Você nunca está satisfeito com as coisas que você tem ou com o lugar que você alcançou. Sempre quer aquilo que não tem ou aquilo que não alcançou." E ela tem razão. É assim mesmo que sou. Os meus sucessos não me satisfazem mais do que o meu desejo por aquilo que não conquistei, aquilo que ainda não alcancei. Restaria saber se ela está satisfeita apenas com aquilo que tem ou que conquistou. Ou se não está consciente dos desejos não satisfeitos que habitam o seu interior. No primeiro caso, ela me jogaria para a categoria dos imaturos, inconstantes e sem gratidão. No segundo, ela apenas não teria dado conta de que somos todos assim. Uns conscientes disso outros, não. Na realidade a coisa comigo é mais patológica do que eu gostaria de admitir. Algumas vezes constatei em mim o desejo de poder viver mil vidas. Parece que apenas uma vida não esgota em mim a sede de experimentar a vida de outros pontos-de-vista. E não estou falando aqui de reencarnação. Na realidade acho pouco experimentar a vida de um só ângulo. Para encontrar o sentido da existência é preciso integrar as inúmeras experiências de vida. Talvez venha daí o nosso prazer em ouvir narrativas, em assistir filmes e em ler romances e biografias. Seria uma forma de apreendermos um pouco do sentido da vida vivída em uma situação diferente da nossa. Talvez no futuro, com o desenvolvimento da inteligência artificial acompanhada da realidade artificial de imersão total possamos satisfazer essa sede de viver novas experiências. Ou, quem sabe tudo isso não passe somente de distração do "eu" que não quer realmente encarar a realidade da vida?
Por falar em inconstância da alma, inconstância do ser, Pascal tenta sintetizar a sua causa:
O sentimento da falsidade dos prazeres presentes e a ignorância da vaidade dos prazeres ausentes dão causa à inconstância. [Pensamentos, p. 110]
Inconstância - Julgamos tocar órgãos ordinários quando tocamos o homem: são órgãos, na verdade, mas estranhos, mutantes, variáveis [cujos tubos não se seguem por graus conjuntos]. Os que sabem apenas tocar os ordinários não produziriam acordes nestes. É preciso saber onde se acham as teclas. [Pensamentos, p. 111]
Inconstância - As coisas têm diferentes qualidades e a alma, diversas tendências; porque nada daquilo que se oferta à alma é simples, e a alma nunca se oferta com simplicidade a assunto algum. Eis por que, às vezes, choramos e rimos com uma só coisa. [Pensamentos, pl 112]Dessa inconstância que é o homem, desse choque de contrários pelo qual passa o homem, aparecem o tédio e a inquietação, aparece a necessidade do divertimento para espantar o tédio. Nos surpreenderemos em refletir sobre tédio e divertimento do ponto de vista de Pascal.
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