TÉDIO E DIVERTIMENTO
Tédio - Nada é mais insuportável ao homem do que um repouso total, sem paixões, sem negócios, sem distrações, sem atividade. Sente então seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio. No mesmo instante virá do fundo de sua alma o tédio, a escuridão, a melancolia, a pena, o despeito, o desespero. [Pensamentos, p. 131]
Assim se escoa a vida. Procuramos o repouso combatendo alguns obstáculos; e, quando estes são superados, o repouso torna-se insuportável. Porque ou refletimos acerca das misérias presentes ou daquelas que nos põem em risco. E, mesmo que nos sentíssemos bem guardados por todos os lados, o tédio, por sua autoridade privada, continuaria a sair do fundo do coração, onde tem raízes naturais, e a encher nosso espírito com seu veneno. [Pensamentos, p. 139]
Divertimento - Seja qual for a condição que imaginemos, pela reunião de todos os bens que nos podem pertencer, concluímos que a realeza é o mais belo posto do mundo. Imaginemos, entretanto, um rei acompanhado de todas as satisfações que dela decorrem, mas sem divertimentos; que considere e medite sobre o que é, e essa felicidade lânguida não mais irá se sustentar. Acabará forçosamente notando as coisas que lhe trazem ameaças, as revoltas que podem estourar, e, por fim, a morte e as doenças inevitáveis. De sorte que, se ficar sem aquilo que se chama divertimento, ei-lo infeliz, [mais] infeliz que o mais ínfimo de seus súditos, que goza e se diverte. [Pensamentos, p. 139]Não seria absurdo afirmar que todas as realizações da humanidade partem da fuga do tédio e da busca do divertimento. Qualquer ser humano que pensa não suporta ficar sozinho consigo mesmo. Ele precisa de divertimento para afastar o tédio. Especialmente nos dias em que vivemos há uma epidemia de tédio e divertimento. Veja bem, quanto mais tédio, mais busca frenética pelo divertimento que afasta o tédio. O tédio, sob um determinado aspecto é benigno: nos faz pensar sobre o que somos, quem somos. Mas como somos miseráveis, não suportamos ficar cara-a-cara conosco mesmos. Daí quem nos poderá salvar? Somente o divertimento. Melancolia é a palavra antiga para o que conhecemos hoje como depressão. Síndrome do pânico é o medo da vida. A falta de sentido, o vazio, trás o medo de viver. Distúrbio do pânico é aquilo que acomete a pessoa que descobre que já está morta, mesmo viva. Quando falamos em divertimento, não estamos falando em passar a vida num parque de diversões. Isso também, mas principalmente estar dedicado a alguma coisa apaixonante. Ter uma paixão dominante que não deixa tempo para pensar quem somos, onde estamos e para onde vamos. A humanidade se especializou em criar alternativas para os homens se esquecerem de si mesmos. O desenvolvimento da humanidade passa pela paixão dos homens.
Divertimentos - Nas ocasiões em que tratei de considerar as diferentes agitações humanas, e os riscos e os castigos a que se expõem os homens, na corte e na guerra, provocando tantas lutas, tantas paixões, tantas realizações ousadas, e muitas vezes funestas, descobri que toda a felicidade dos homens provém de uma coisa só, que é a de ser incapazes de permanecer quietos em um quarto. [Pensamentos, p. 139]Encontre um homem que está no final de sua vida. Ele já entrou na melhor idade, construiu uma reputação, casou-se, teve filhos, formou seus filhos, que saíram de casa, casaram-se. Agora ele está aposentado, muito velho para começar outra vida, muito novo para morrer [do ponto de vista dele, é claro]. Enquanto ele se dedicava a construir tudo isso, não pensava em si, não tinha tempo para isso. E se arrumasse tempo para isso logo se afastava horrorizado, buscando algo que o livrasse de tais pensamentos. Dinheiro, sexo e poder eram os lenitivos para sua dor interior de pensar em si mesmo. Mas agora, tudo isso se foi. Não precisa mais procriar. Não tem mais aquela disposição para o sexo, aliás tem uma reputação a zelar. Estou falando dos plebeus, pois os reis e os nobres têm seus privilégios e podem seguir nos seus divertimentos. Pois bem, um homem assim está pronto para morrer. De fato, ele definha e morre.
No entanto, ao refletir mais de perto sobre o assunto [do tédio], e, depois de ter encontrado a causa de todas as nossas infelicidades, pretendi descobrir-lhes o motivo; julguei que existe uma muito efetiva, que consiste na infelicidade natural de nossa condição fraca e mortal, e tão miserável que nada nos pode oferecer consulo quando sobre ela refletimos de perto. [Pensamentos, p. 139]Não é a taça do campeonato que trás felicidade ao homem, não é a anta que ele caça, mas é a disputa, é a caça, é a subida ao pico, mais do que chegar ao pico propriamente dito, na realidade é a concentração sobre a disputa, a caça e a escalada que distrai a mente do homem e o livra de pensar sobre si. Como diz Pascal:
Não é essa vida indolente e tranquila que nos proporciona tempo para refletir sobre a nossa infeliz condição, que buscamos; como não são os perigos da guerra, nem os aborrecimentos dos empregos; é o ruído, que nos afasta da reflexão acerca da nossa condição e nos diverte.
Essa lebre não nos livra da visão da morte e das misérias, mas a caça - nos desvia dela - dela nos livra.
E, assim, quando os alertamos de que aquilo que procuram com tanta energia não é capaz de os satisfazer, se respondessem, como deveriam fazer caso raciocinassem bem, que buscam nisso somente uma ocupação violenta, impetuosa, que lhes impeça de pensar em si mesmos, e que é por isso que se propõem um objeto fascinante que os encante e os atraia com entusiasmo, deixariam sem argumento os adversários. Mas não respondem dessa maneira, porque não conhecem a si mesmos. Não sabem que é a caça e não a presa que procuram. [Pensamentos, p. 139]Talvez isso explique a busca de adrenalina pelos jovens hoje: bungee jump, racha, sexo, drogas, rave, balada, tráfico... E a busca de adrenalina dos jovens de ontem, tais como Alexandre, Augusto: jogos, guerras e conquistas territoriais. E explica também porque os reis e os governantes têm sempre um grande número de pessoas ao seu redor que não os deixam um só instante sem divertimento. Um rei que pensa sobre si mesmo logo ficará infeliz. Um rei infeliz é preocupante. Nem mesmo a contemplação de sua própria glória pode impedir um rei de ficar infeliz, como nos diz Pascal:
Faça-se a experiência: deixe-se um rei sozinho refletir com serenidade em si, sem nenhuma satisfação dos sentidos, sem nenhum cuidado no espírito, sem companhia, e ver-se-á que um rei sem divertimento é um homem cheio de miséria. Por isso, tal coisa é cautelosamente evitada, e jamais falta, junto dos reis, grande número de indivíduos zelando para que os divertimentos sucedam aos negócios, observando-os durante seu descanso para lhes proporcionar prazeres e jogos, de maneira que não haja um vazio; são cercados de pessoas que cuidam maravilhosamente de impedir que o rei fique só e em situação de pensar em si, pois sabem que ele será miserável, apesar de rei, se tal acontecer. [Pensamentos, p. 142]Talvez esteja aí a explicação do porque alguns de nós somos tão cheio de propósitos, projetos, atividades, relacionamentos, etc. A reflexão, a meditação, a solitude não é artigo procurado hoje em dia nesse mundo de correrias...
No comments:
Post a Comment