Sunday, December 12, 2004

A angústia da morte prevista...

Dostoiévski é um dos autores que eu admiro muitíssimo. Já li vários romances dele. Agora estou lendo um romance que sempre pretendi ler: O Idiota. Dostoiévski tem a capacidade de conhecer a alma humana como poucas pessoas o podem fazer. Ele também passou por várias experiências interessantes na sua vida. Uma delas aconteceu quando foi preso como subversivo e passou por um fuzilamento simulado até o último instante, quando sua execução foi revogada e ele foi mandado para a Sibéria. Assim, ele experimentou a agonia de saber que nos próximos segundos deixaria de existir...

Por que estou falando sobre isso? Bem, me reporto a outra reflexão que aqui deixei a propósito da execução pública dos reféns iraquianos. Dê uma lida. Talvez eu não soubesse com tanta maestria descrever o tormento da alma daquele que seria executado nos próximos segundos, sem possibilidade de apelação. Certamente Dostoiévski é muito mais hábil do que eu para descrever essa angústia de alma. Acompanhe...





- Não. Em França eles cortam fora as cabeças.

- Gritam?

- Como poderiam? Aquilo é feito em um instante. Fazem o homem ficar deitado e então uma grande faca desce, pelo próprio peso. Uma máquina poderosa, chamada guilhotina. A cabeça pula fora antes que a pessoa pisque! Os preparativos são horríveis. Mal acabam de ler a sentença, aprontam o homem, atam-no, levam-no para o cadafalso - e isso é que é terrível! Juntam-se multidões, até mulheres, embora não gostem que as mulheres assistam.

- Não é coisa para elas!

- Naturalmente que não. Naturalmente. Uma coisa assim, tão hedionda! O criminoso era um homem inteligente, de meia-idade, forte, corajoso, chamado Legros. Mas lhe garanto que quando subiu para o cadafalso estava chorando, e mais branco do que uma folha de papel. Não é incrível? Não é hediondo? Quem pode chorar de medo? Nunca me passou pela cabeça que um homem já feito, não uma criança, mas um homem que nunca chorou, um nome de quarenta e cinco anos, pudesse chorar de medo! O que não deve estar se passando na sua alma, nesse momento!? A que angústia não deve estar ela sendo levada!? É um ultraje para uma alma, eis o que é! Está escrito: "Não matarás!" E então, porque ele matou, o matam? Não. Isso está errado! Já faz um mês que assisti a isso, mas me parece estar ainda vendo com os meus olhos. Já tenho sonhado uma meia dúzia de vezes. [...]

-Ainda é uma boa coisa que, pelo menos, não haja muito sofrimento quano a cabeça cai.

- Quer saber de uma coisa? O senhor fez justamente uma observação que já ouvi de muitas outras pessoas - prosseguiu o príncipe, acalorando-se - e a guilhotina foi inventada com esse fim. Mas, naquela ocasiã, me ocorreu o pensamento de que talvez isso fosse pior. Pode lhe parecer absurda e bárbara esta minha idéia, mas, quando se tem imaginação, se chega, como eu, a supor isso. Pense! Se houvesse tortura, se, por exemplo, houvesse sofrimento, um ferimento que desse agonia corporal, e tudo o mais, isso pelo menos distrairia o espírito, desviando-o do sofrimento moral, de maneira que só se seria torturado pela dor física até que se morresse. Mas a principal e pior pena não está no sofrimento corporal e sim em se saber com segurança matemática que, em uma hora, depois em dez minutos, a seguir em meio minuto, e, depois, , bem agora mesmo, neste segundo a alma deve deixar o corpo, e se vai cessar de ser homem; e que isso tem de acontecer!... O pior de tudo isso está em que é certo. Quando o senhor deita a sua cabeça lá, debaixo da lâmina, e a ouve escorregar vindo para a sua cabeça, este quarto de segundo é o mais terrível de todos. O senhor note que isso não é imaginação da minha parte. Muita gente tem dito o mesmo. Vamos a ver se consigo lhe dizer cabalmente o que sinto. Matar, por coaus de um assassinato, é uma punição incomparavelmente pior do que o próprio crime cometido. O assassinato por sentença judicial é incomensuravelmente pior do que o assassinato cometido por bandidos. Quem quer que seja assassinado por bandidos, e, cuja garganta tenha sido cortada, em um bosque, à noite, ou qualquer coisa assim, naturalmente que espera escapar, até o último momento. Tem havido casos de uma pessoa ainda esperar escapar, correndo, ou suplicando misericórdia, e já depois da garganta ter sido cortada! Mas no outro caso, a que nos estamos referindo, toda esta última esperança, que faz morrer dez vezes, como é fácil compreender, está suprimida, poi s se sabe que é certo. Há uma sentença; e toda a medonha tortura jaz no fato de que não há, certamente meios de escapar. E não há, no mundo, tortura maior do que esta. Podem-se comandar soldados, mandar que um deles se coloque diante de um canhão, em batalha, e ele saber que vão dispará-lo sobre ele: ainda assim terá uma esperança. Mas leia o senhor uma dada sentença de morte a esse mesmo soldado ele ou enlouquecerá, ou cairá em lágrimas. Quem já afirmou que a natureza está capacitada para suportar isso, sem loucura? Para que e por que essa revoltante, inútil e desnecessária atrocidade? Talvez, por aí, haja algum homem que já tenha sido exposto a tal tortura e a quem tenha sido dito: "Vai-te embora. Estás perdoado!" Tal homem, decerto, nos pode dizer que foi dessa tortura e dessa agonia que Cristo falou, também. Não, não se pode tratar assim uma criatura humana! (extraído de O Idiota, Dostoiévski, Editora Martin Claret)

Aí está. Julgue você mesmo a tortura por que tem passado cada um dos reféns executados friamente pelos terroristas iraquianos! Eu já assisti uma execução pela internet e posso dizer que o padrão é bem esse que Dostoiévski descreve. E qual é o crime deles? Muitas vezes é estar exercendo tarefas humanitárias para os próprios iraquianos!

Quanto às opiniões de Dostoiévski sobre a pena de morte, eu penso diferente para aqueles crimes bárbaros perpetrados friamente por bandidos sem consideração. Mas, isso já outro assunto.

Pense nisso!



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