Wednesday, December 2, 2009

Pascal e a Natureza Humana - Parte III

Imaginação - É essa parte enganadora no homem essa senhora de engano e falsidade, tanto mais velhaca quanto não o é sempre...
Não falo dos loucos, e sim dos mais sábios, e é entre eles que a imaginação tem o imenso dom de persuadir os homens. Por mais que a razão grite, não pode valorizar as coisas.
Essa soberba potência inimiga da razão, que se deleita em mantê-la sob controle e domínio a fim de mostrar quanto pode em todas as coisas, estabeleceu no homem uma segunda natureza. Tem seus felizes, seus infelizes, seus sãos, seus doentes, seus ricos, seus pobres; faz crer, duvidar, negar a razão; suspende os sentidos, faz com que se os perceba; tem seus loucos e sábios: nada nos irrita mais do que contatar que enche seus hóspedes de uma satisfação bem mais plena e completa do que a razão. Os hábeis por imaginação comprazem-se muito mais em si mesmos do que os prudentes o conseguem de modo razoável. Observam os demais com autoridade; disputam com ousadia e confiança; os outros, com medo e desconfiança: essa alegria visível lhes proporciona, muitas vezes, vantagem, na opinião dos ouvintes, tal é a maneira como os sábios imaginários gozam mercê junto aos juízes de idêntica natureza! Não pode tornar sábios os loucos; mas os torna felizes, ao contrário da razão, que só pode tornar seus amigos miseráveis; uma ao cobrí-los de glória, outra, de vergonha.[Pensamentos, p. 82]
Pascal pensa que a razão tem uma inimiga poderosa que governa o mundo já que, infelizmente, as pessoas se entregam a ela com mais facilidade do que se entregam à razão: a imaginação. De que imaginação Pascal está falando? Não se trata da imaginação criativa, serva da razão. Trata-se antes de uma forma de cegueira que impede até mesmo os sentidos de se manifestarem. A pessoa imaginativa, no sentido em que Pascal está se referindo, cria a sua própria realidade, contrariando a razão e os sentimentos. Ela cria e vive dentro dessa realidade própria, esse mundo do faz-de-conta que zomba dos fatos. Podemos colocar aqui aqueles ditadores malucos que, tomando o poder, impõem suas ideologias aos seus infelizes conterrâneos. Podemos colocar aqui aqueles profetas estapafúrdios com suas utopias extraordinárias que carregam milhares de outros imaginativos que já desistiram de agir pela razão e pelos sentidos. Podemos colocar aqui aqueles sistemas religiosos que obrigam as pessoas a viverem de modo antinatural porque seu guru ou profeta mor viu isso nos seus sonhos idiotas. Não são muitos os que escapam do domínio dessa senhora enganadora e falsa.
Segundo Pascal, a imaginação distorce a visão das coisas. Ele chama a imaginação de fantasia. Ela funciona como uma lente que me faz ver o mundo sob luz diferente da realidade. Faz um homem odiar a outro porque se comporta de maneira contrária àquilo que nossa fantasia estabeleceu como aceitável. As velhas e as novas crendices têm o poder de nos enganar. Há também doenças que perturbam nosso julgamento e sentidos.
Infelizmente, se os sentidos e a razão, que são os pilares da verdade, não forem utilizados de maneira cuidadosa poderão levar também ao engano, constituindo-se em forças enganadoras. A origem mais forte do falseamento da realidade é a guerra entre os sentidos e a razão:
O homem não é senão um alguém cheio de erro, natural e indelével sem a graça. Nada lhe revela a verdade. Tudo o mantém iludido. Os dois princípios das verdades, a razão e os sentidos, não apenas necessitam de sinceridade como iludem-se um ao outro. Os sentidos, com suas aparências falsas, enganam a razão; e esse mesmo logro que ofertam à razão recebem-no dela, por seu turno. Ela revida. As paixões da alma perturbam os sentidos e provocam-lhe falsas impressões. Mentem e se enganam sem descanso. [Pensamentos, p. 83]
É interessante que Pascal diz que o papel da vontade na crença é fundamental. O ângulo pelo qual vemos a vida depende do exercício da vontade. As crianças crescem e desenvolvem uma visão de mundo que está ligada com os hábitos que se praticam na família. Isso significa que podemos corrigir nossa imaginação criando hábitos que nos farão ver a realidade de forma diferente:
Que são nossos princípios naturais senão princípios de hábitos? E nas crianças, os que receberam com os hábitos dos pais, como a caça entre os animais?
Hábitos diferentes dão-nos princípios naturais diferentes, é o que nos mostra a experiência; e, caso existam princípios que o hábito não pode eliminar, existem igualmente os do costume contra a natureza, inextinguíveis por esta, ou por um segundo costume. Tudo depende da disposição.  [Pensamentos, p. 92]
Os pais receiam que o amor natural de seus filhos desapareça. Que espécie de natureza será essa então, passível de extinção? O hábito é uma segunda natureza que destrói a primeira. Mas que é a natureza? Por que não é o hábito natural? Temo que tal natureza não seja ela própria nada além de um primeiro hábito, assim como o hábito é uma segunda natureza. [Pensamentos, p. 93]
Há diferença essencial e universal entre as ações da vontade e todas as outras.
A vontade é um dos órgãos principais da crença, não porque a forme, mas porque as coisas são verdadeiras ou falsas de acordo com o ângulo pelo qual as vemos. A vontade, que se satisfaz mais em um do que em outro,  afasta o espírito da consideração das qualidades que não deseja enxergar; de sorte que o espírito, marchando de comum acordo com a vontade, detém-se a olhar do ângulo que esta aprecia. Julga-se desse modo pelo que se vê. [Pensamentos, p. 99]
Bem daí, me parece que Pascal está dizendo que ainda que eu tenha sido educado numa forma imaginativa de ver o mundo que se oponha à realidade das coisas, pelo força da vontade, essa primeira natureza adquirida ao longo de uma vida pode ser mudada se aplicarmos a vontade para criarmos hábitos novos. À medida que hábitos novos vão sendo desenvolvidos pela vontade, uma nova visão da vida vai se estabelecendo em nosso ser.

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