Sunday, November 21, 2004

O farmacêutico e o trem...

Os temores do homem são formados com base nas maneiras pelas quais ele

percebe o mundo. Ora, o que é que há de peculiar com relação à percepção que a

criança tem do mundo? Em primeiro lugar, a extrema confusão das relações de

causa e efeito; em segundo, a extrema irrealidade quanto aos limites de seus

próprios poderes.

Ernest Becker, A Negação da Morte, p. 31


Estava comentando com minha filha sobre a idéia estranha de como uma criança percebe o mundo e suas relações. Disse-lhe que havia lido em algum lugar que uma criança já de uma certa idade, ao ouvir a expressão: "Seu pai ficou preso no trânsito..." poderia imaginar seu pai atrás das grades numa imensa fila de carros...
-"Acho um pouco exagerado", concluiu minha filha. "Como é que eles sabem o que uma criança pensa?"
-"Devem fazer alguns testes", acrescentei eu. E, imediatamente, me lembrei de um incidente que aconteceu comigo mesmo quando ainda era bem pequenino. Foi assim:
Eu estava viajando de mudança com minha família de Minas Gerais para o interior do Paraná, onde meu pai iria assumir a função de capataz de uma fazenda. De alguma maneira eu fiquei doente durante a viagem. Talvez fosse apenas um simples resfriado, eu não me recordo. Apenas sei que, numa das paradas do trem, em uma estação ferroviária, havia uma farmácia. Nós saimos do trem e fomos até lá para que eu tomasse uma injeção de algum remédio. Agora, o mais interessante. Tenho esse nítido quadro na memória. É uma memória distante, mas perfeitamente distinta.
Como os mais velhos devem se lembrar, antes dos tempos da AIDS e das seringas descartáveis, as seringas e agulhas eram esterilizadas numa caixinha metálica com água que era levada à ebulição por recipiente com alcool debaixo dela. Era costume daqueles que 'aplicavam injeções', após um período de ebulição, montar a agulha na seringa, aspirar a água quente e expelí-la para longe. Pois bem, a cena ainda é bastante nítida: uma pessoa pega a seringa, aspira a água quente e então empurram o êmbolo, espelindo o líquido na direção da porta da farmácia. Neste exato momento, um vagão é empurrado pela máquina, numa monobra logo em frente à porta da farmácia, que ficava na plataforma da estação, e se engata ao outro vagão num tranco barulhento. Na minha percepção infantil, a causa dos dois vagões engatarem-se num grande barulho foi a água expelida pela seringa na direção da plataforma. Não há nenhuma dúvida. Que poderosa era aquela seringa! Não me lembro de mais nada. Acho que aquela injeção que tomei foi traumática, a ponto de eu haver censurado sua lembrança. Também depois daquela demonstração de força quem é que daria voluntariamente o bumbum para ser espetado?
Então, é verdade, a criança faz uma extrema confusão entre as relações de causa e efeito, em sua percepção do mundo. Ora, daí nossos temores são formados. Quanta coisa não deve ter sido internalizada em mim decorrente das minhas percepções infantis da realidade?
É isso.

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