Saturday, November 20, 2004

O homem moderno e o medo da morte...

Não há dúvida de que os primitivos celebram, com frequência, a morte - como Hocart e outros demonstraram - porque acreditam que a morte é a promoção suprema, a última elevação ritual para uma forma de vida superior, para o desfrute da eternidade de alguma forma. A maioria dos ocidentais modernos tem dificuldade em acreditar nisso, o que faz com que o medo da morte tenha um papel muito destacado em nossa configuração psicológica.

Ernest Becker, A Negação da Morte, p. 9.


Que a maioria dos ocidentais modernos tem dificuldade em acreditar que a morte é a promoção suprema para uma vida superior não pode ser surpresa para ninguém mais, veja uma notícia colhida no MSN Notícia que diz o seguinte:



"Passamos de uma cultura cristã para um secularismo radical com características de intolerância", disse o cardeal [Ratzinger] ao jornal La Republica, em entrevista publicada na sexta-feira.



"(Deus) está muito marginalizado. Na esfera política parece quase indecente falar sobre Deus, quase como se fosse um ataque à liberdade daqueles que não acreditam", afirmou Ratzinger na entrevista.



Dessa forma, não é de duvidar que os primitivos, sob um certo aspecto, o do medo da morte, eram superiores aos homens modernos... Isso fica muito claro também se considerarmos que na constituição do homem, segundo a Bíblia, Deus colocou nele o desejo pela eternidade:



Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até o fim.

Eclesiastes, 3.11



Assim, quando o homem ignora algo que é essencial dentro dele, utilizando o mecanismo da repressão consciente, obviamente a natureza do homem reage e manifesta aquilo que foi reprimido de uma outra forma: no medo da morte.

Becker comenta que devido ao fato de, "no fundo do coração, o indivíduo não acha que ele vai morrer, apenas sente pena daquele que está ao seu lado", numa guerra uma pessoa continua avançando até que é finalmente derrubada por um tiro fatal. Então ele apresenta a explicação freudiana para o fato:



[...] o inconsciente não conhece a morte ou o tempo: nos seus recessos orgânicos fisioquímicos mais íntimos, o homem se sente imortal.

Ernest Becker, A Negação da Morte, p. 16.



Não é interessante que Freud venha a encontrar a eternidade no coração do homem, como afirma a Bíblia acima?



Eu não queria aqui prolongar muito essa pequena e humilde reflexão de um homem ainda cheio de incertezas, mas não resisto e cito mais um pensamento de Becker a propósito da arrogância do homem moderno em querer calar uma voz que proclama e defende sua religiosidade, demonstrando intolerância a qual nós não podemos tolerar:



Quando Norman O. Brown disse que a sociedade ocidental, mesmo a partir de Newton, por mais científica ou secular que alegue ser, ainda é tão 'religiosa' quanto qualquer outra, eis o que ele queria dizer: a sociedade 'civilizada' é uma esperançosa crença e protesto de que a ciência, o dinheiro e os bens façam com que o homem valha mais do que qualquer outro animal. Nesse sentido, tudo aquilo que o homem faz é religioso e heróico e, no entanto, corre o perigo de ser fictício e falível.

Ernest Becker, A Negação da Morte, p. 18.



Agora, apenas 'acreditar' que o homem é imortal, não basta. Nós 'acreditamos' em muitas coisas, mas não colocamos a nossa confiança nelas. Talvez fosse melhor usar a palavra que os cristãos gostam muito de usar: FÉ! Sim, porque fé é uma convicção inabalável, uma certeza profunda, capaz de dar sustentação para o indivíduo na hora da aflição, na hora da provação, na hora do desespero... Como diz a Bíblia até os demônios acreditam que Deus é um só, mas o que vale isso para eles? Eles jamais confiariam suas vidas a Deus...

Pense nisso...

T+



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