Becker afirma que "existem muitas maneiras pelas quais a repressão atua para acalmar o angustiado animal humano, a fim de que ele não precise ter o mínimo de angústia". Mas assim ele segue como que anestesiado, sem se dar conta do porque ele faz o que faz.Em épocas assim, quando desponta aquela percepção que sempre foi eclipsada por
alguma atividade frenética disponível no momento, vemos a transmutação da
repressão redestilada, por assim dizer, e o medo da morte surge em pura
essência. É por isso que as pessoas têm surtos psicóticos quando a repressão já
não funciona mais, quando a descarga de tensões através da atividade já não é
mais possível. Ernest Becker, A Negação da Morte, p. 36.
As pessoas podem negar o quanto quiserem o medo da morte, contudo, ele está lá, em baixo da pele. Alíás, basta fazer um teste psicológico com medições das reações galvânicas da pele. Como dizem os psicólogos: "por baixo do mais sereno exterior esconde-se a ansiedade universal, o 'verme no âmago'".
Pessoalmente, além de uma infância conturbada e perturbada pelo medo da morte de minha mãe, manifestado em crises de 'pânico', quando ainda nem se falava disso, eu mesmo já passei por várias experiência onde pude ver um pedacinho daquele verme lá dentro, mas fiz de conta que não vi. Chegou um dia, todavia, em que não pude mais escondê-lo convenientemente lá dentro. Ele aflorou em toda sua feiúra.
Eu tinha basicamente três ocupações, uma das quais, acontecia numa cidade vizinha que ficava mais ou menos a três horas de carro da minha cidade de moradia. Num final de semana, depois de um dia duro de ministração de aulas, comecei a sentir uma dor de cabeça e algum descompasso no coração. Muito incomodado com a situação pedi a um colega que me levasse num hospital para ver o que estava acontecendo. Lá o plantonista constatou que minha pressão estava anormalmente elevada. Medicado para baixar a pressão voltei para o alojamento. No entanto, a dor de cabeça piorou e parecia que eu ia morrer. Voltei ao pronto socorro. Desta vez deram-me uma injeção com um tranquilizante e glicose para dor de cabeça. Fiquei imprestável o resto do dia. No outro dia voltei sonolento no banco de trás do carro em que íamos todo final de semana trabalhar. A partir dessa primeira crise comecei a experimentar muitas coisas que estavam entranhadas em mim mesmo. Levei quase seis meses para sair de uma crise de depressão onde o mundo se tornou cinzento para mim. Além disso, muitas vezes experimentava ondas de puro terror do nada. O medo era encarnado. Eu podia senti-lo em cada fibra dos músculos. Vinha como ondas que se alternavam. Tive outra crise grande cinco anos depois. Finalmente, arranjei uma forma de superar o problema. Noutra oportunidade quero falar um pouco mais sobre isso.
Por enquanto, é isso!
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